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	<title>Algo Meu</title>
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	<description>estórias minhas</description>
	<pubDate>Wed, 09 Apr 2008 00:01:21 +0000</pubDate>
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		<title>#44</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Apr 2008 00:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Porto]]></category>

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		<description><![CDATA[Porto, 9 de Abril de 2008
Entrei na Rota dos Chás coberto pela água que caía lá fora. As miúdas sentadas no chão, cabeças no ar com as paixões e penteados da idade não devem ter reparado como chovia torrencialmente no Porto. Procurei por eles na sala do piso térreo mas não fosse o caso de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porto, 9 de Abril de 2008</p>
<p>Entrei na Rota dos Chás coberto pela água que caía lá fora. As miúdas sentadas no chão, cabeças no ar com as paixões e penteados da idade não devem ter reparado como chovia torrencialmente no Porto. Procurei por eles na sala do piso térreo mas não fosse o caso de terem os três mudado o desenho das suas figuras, ia ter de subir os degraus do jardim interior abalroados pela chuva para que me pudesse sentar no meu canto e bebesse um chá estranho trazido em bule de barro.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00173.jpg" /></p>
<p>Paro. Não me consigo habituar a este modo estranho como escrevo e não penso, como penso e não digo, não há forma de me fazer entender quanto à disparidade do que em mim se enterra. Este algo que é meu é uma mentira, bem guardada nos bolsos de um casaco que penso sempre nunca mais voltar a vestir. Desoprime-me, faz-me ver o meu mundo por uns olhos que não são meus mas que também não são de mais ninguém. Os olhos de uma criança que nunca vai crescer mas que se quer com certezas guerreiras fazer parte de um mundo adulto que não o mira sem desdém. Ninguém o merece, certo? Errado.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00174.jpg" /></p>
<p>Hoje fiz o meu compasso de espera a tentar enganar o relógio que se aconchegava às oito menos dez da manhã com a Temptation do Moby. O original é dos New Order mas eu apaixonei-me por esta primeiro, e que guarde para sim os que me dizem que a primeira faz a segunda gritar de dor. Não faz, é doce, é minha. As gotas caíam em catadupa por cima do carro, os estofos gastos e quase rasgados acariciavam-me a pele dos braços nus, os vidros fechados inundavam a imagem da minha faculdade desfocada pela água num nevoeiro de sopro só meu. Os carros iam-se acumulando lado a lado numa dança sem ritual nem carinho para mais um dia de trabalho ou quiçá de falta dele. Eu ouvia alguém cantar que à noite queria estar sozinha. É de noite, pelo menos eu estou sozinho.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00175.jpg" /></p>
<p>E às vezes é uma merda estar sozinho, não é? Entendam-me, eu gosto de estar sozinho, sou egoísta o suficiente para achar que a solidão é um luxo. Chateia-me ter de fazer favores a alguém que não sou eu. Sou uma criança, lá está, que além de infantil é burra – porque há crianças que não são burras – e se dá ao luxo de escrever futilidades barbáricas como esta. Mas eu gosto de o ser, e também gosto de me sentir mal quando sinto a falta do toque de alguém. Às vezes sabe bem termos alguém com quem podemos largar tudo o que guardamos durante um pequeno dia, uma pequena semana, pequenas eternidades. Hoje é uma merda estar sozinho. Uma merda pequena, imbecil e ridícula. Amanhã é um sonho outra vez.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00176.jpg" /></p>
<p>Entrei na Rota dos Chás com um olhar tremido como entro sempre que não reconheço instantaneamente as caras que me rodeiam. Subi o degrau e debrucei-me sobre a mesa. Devo ter mandado uma piada fácil, não me lembro. Sei que reparei na mesa de Italianas e no casal ainda mais solitário que eu que trabalhava a um canto do andar de cima. Pedi à empregada que me escolhesse o chá para o qual não tinha paciência de estudar a carta e o bolo que mais depressa me ia trazer ao de cima. Não ando em cima, para que é que quero ir ao de cima? Não quero. Sabes, não quero. Quero ficar assim, estável. Tenho de me deixar ser estável. Hoje é bom estar sozinho. Afinal. Que textos de treta, pá.</p>
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		<title>#43</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Mar 2008 15:19:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Porto]]></category>

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		<description><![CDATA[Porto, 29 de Março de 2008
Música. Encerras nos punhos a loucura que tens acumulada e deixas que tudo desapareça através do que te entra pelos ouvidos atentos. Entras no ritmo, a batida é o teu pulsar e ela transmite-te a cadência do que vives. As pálpebras que nunca se tocam, os dedos que levitam no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porto, 29 de Março de 2008</p>
<p>Música. Encerras nos punhos a loucura que tens acumulada e deixas que tudo desapareça através do que te entra pelos ouvidos atentos. Entras no ritmo, a batida é o teu pulsar e ela transmite-te a cadência do que vives. As pálpebras que nunca se tocam, os dedos que levitam no ar ao sabor da tua dança efémera. As pálpebras que nunca se tocam para que com os olhos despertos consigas ver presente as mais doces recordações. As duas mãos que te envolviam a cara com ternura, o volante que prolongava o corpo naquela viagem alucinante, o teu choro irrepreensível de quem vê a parede de vidro quebrar em cinco instantes. A música dá vida ao que viveste, ao que já não sabes ser, dá-te coragem para te conheceres numa dança à volta do teu próprio tempo.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00169.jpg" /></p>
<p>Há um banjo e uma voz de criança. Há dois violinos amantes e um violoncelo ciumento. Há o banjo outra vez, batidas nos tambores perfumados e há o refrão. Agarras o volante com mais força, sentes a face a escaldar e as lágrimas que nela assentam a ferver, cantas para que ninguém te ouça. Vais e vens com um propósito, sonhas no que sabes ser impossível, pedes para que aconteça aquilo que te assusta e de que queres fugir, foges quando sabes que é possível, o banjo volta, os cantos da criança ainda não acabaram, aceleras por entre as montanhas e pedes para que tudo fique esquecido. Mas a música volta e nada é esquecido. As memórias não se esquecem, guardam-se. As chaves perdem-se, mas a música tem os seus truques bem marcados.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00170.jpg" /></p>
<p>Deixem-me que lhe chame Sofia. A Sofia gravou-me dezasseis músicas num disco colorido a lápis de cera, guardou-o numa capa com algumas colagens, pinturas e rabiscos, selou-o com a palheta de uma guitarra presa por um pequeno fio e entregou-me tudo com um sorriso apressado no dia em que decidi partir. Quatro meses depois, sozinho em vésperas de Natal numa Nuremberga deserta, decidi esquecer a razão e fazer-me à estrada em direcção ao Canteiro. Em pouco mais de um dia estava de volta a Portugal, em pouco mais de um dia a banda sonora da Sofia tinha-se transformado no meu mais precioso baú.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00171.jpg" /></p>
<p>A noite ainda não se foi deitar, a estrada está gelada e o volante às vezes perde os sentidos. O carro luta contra a neve e o vento para não ser atirado berma fora, os campos brancos chamam por ele, o céu também. Dentro do carro, tu contas a história de um rapaz esquecido no tempo, lá fora, esse mesmo tempo parou, estanque num daqueles globos que ela uma vez me pediu. Desculpa por nunca to ter trazido. Desculpa-me por não ter ido jantar a casa, eu não sabia.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00172.jpg" /></p>
<p>Companheiros de aventura nos seus navios mercantes do asfalto, o tracejado da rota torna-se numa linha inquebrável, a neve Alemã e aquela estrada adorável sem fim na provença Francesa, o deserto Espanhol e as eléctricas serras Alpinas. O fogo-de-artifício que não existiu, a cidade abandonada por entre um encantador nevoeiro de bombas carnavalescas a explodir em caixotes decrépitos nas estranhas ruas caiadas com desenhos a lilás, o acelerador, o volante e o banjo, o teu beijo, o meu banjo outra vez. O amor não te vai nunca deixar em paz, criança. Cantas, o que é que isso te diz?</p>
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		<title>#42</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Mar 2008 09:33:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Porto]]></category>

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		<description><![CDATA[Porto, 26 de Março de 2008
São as pequenas incursões por uma cidade ainda adormecida que fazem o Porto entranhar-se dentro de mim. O paralelo encharcado pela noite espera pacientemente por uma distracção que me empurre para o chão, os gatos vadios retornam à sua casa nos jardins municipais abandonados, homens engravatados e ar ensonado apressam-se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Porto, 26 de Março de 2008</p>
<p>São as pequenas incursões por uma cidade ainda adormecida que fazem o Porto entranhar-se dentro de mim. O paralelo encharcado pela noite espera pacientemente por uma distracção que me empurre para o chão, os gatos vadios retornam à sua casa nos jardins municipais abandonados, homens engravatados e ar ensonado apressam-se a pôr a gabardine nos bancos de trás do carro e a seguirem viagem para o seu trabalho já com um ar entediado decididamente entranhado nas suas feições.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00166.jpg" /></p>
<p>Fecho as portas do Velhinho, peço ao Billie Joe Armstrong que me acorde um pouco mais, desço os vidros o mais que posso para que seja o frio e não a chuva a levarem de mim o que resta de sono, começo o dia a tentar evitar que algum carro desgovernado acerte em mim para me calar a sinfonia do acordar. Não que me importasse, penso entre dois sorrisos às nuvens que assustam antes de seguir caminho para a Faculdade. Percorro a rua das árvores púrpura sem prestar atenção aos faróis encharcados que por mim passam e penso que desde que voltei no dia oito de Fevereiro ainda não escrevi nada por estes lados.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00167.jpg" /></p>
<p>Já lá vão sete semanas e ainda assim tenho presente a tarde do regresso como nada mais. A vontade de saltar fora do avião, de me estender de joelhos e pedir ao piloto para dar meia volta ao grande pássaro, a raiva que sentia enquanto um imigrante fala-barato se debatia entre três cervejas espanholas e a sua adoração cega pela nação que é a sua cidade, a desorientação sufocante de não saber onde colocar os pés na chegada ao aeroporto, a retina em stress que não quer olhar para ninguém, a força que se faz para se fechar os olhos e esperar sem sucesso que ao abrir sejamos transportados de volta para a casa que nos albergou durante seis meses.</p>
<p><img src="http://pedro.aloneinkyoto.net/files/algo-meu-00168.jpg" /></p>
<p>Passei aquela tarde sozinho no quarto, de porta trancada e olhar prisioneiro do tecto mais branco que alguma vez vi, sem conseguir largar uma palavra por entre as muitas que dentro da cabeça ainda escorreriam em inglês de improviso. Veio o trabalho, o acordar com as galinhas que nada me chateia, os almoços entre gargalhadas recheadas com parvoíce e muito sal, as saídas à noite plantadas pelos sorrisos e devaneios das minhas crianças alucinadas. Vieram os passeios pela minha cidade, os sorrisos e turras do miúdo que vai ser rei, os serões de cinema – o cinema, que saudades que eu tinha do cinema! – e o regresso a casa exausto pelos atropelos de dias que deveriam ter o dobro do tamanho se algum dia o sol e a terra nos levassem a sério.</p>
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		<pubDate>Mon, 04 Feb 2008 18:13:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nuremberg, February 4th 2008
Some thoughts in English so this time everybody gets it right. A couple of days ago Matt came to my place asking for his hard-drive and told me he was doing a video of this five months in Nuremberg. Although the idea had crossed my mind a few days back, I definitely [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nuremberg, February 4th 2008</p>
<p>Some thoughts in English so this time everybody gets it right. A couple of days ago Matt came to my place asking for his hard-drive and told me he was doing a video of this five months in Nuremberg. Although the idea had crossed my mind a few days back, I definitely always felt to lazy to do it. Also, there&#8217;s the problem of doing a thing that u usually will end up not liking after spending so much time working on it. It&#8217;s kind of like investing your beautiful and kind-of-short time after a girl and then, when you finally have it, you don&#8217;t want it anymore. Or a boy, anyway girls, you got it, right? The idea absorbed itself.</p>
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<p>Anyways, I&#8217;ve not been after any girl in the last week and neither I felt like this came out miserably. It&#8217;s not amazing, it doesn&#8217;t even has the greatest moments in here - those that no camera can get - but it certainly gets the message to the other side. At least for those of you who lived part of it. So. Hope everybody likes it, if you want you can even make a little bu-ooh like Lígia did - sorry hon, had to tell the crowd ;-). Bu-ohh. Right. Because Nadya left today. I will guess that was the main reason for doing this. It&#8217;s a strange and sad feeling. Woke me up at 8:30, gave me some extremely strong coffee that almost cause me a caffeine overdose, and left. Although, for my bad, no one cried. Well, at least not in front of me. In front of me everybody behaves. Or maybe nothing happened because her goodbye party was kind of crazy, kinky I should add, and therefore good feeling trumps bad feelings. Yes it sure does. It&#8217;s four days left to go and not a single spot of motivation for doing it. Hopes are that good feelings keep on trumping. &#8220;This was kind of good, wasn&#8217;t it?&#8221;</p>
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		<title>#40</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Jan 2008 14:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nürnberg, 26 de Janeiro de 2008
Delicioso. Ouvir as diferentes combinações das camadas que uma música que conhecemos de trás para frente tem é, outra vez, delicioso. E o vídeo, amigos, o vídeo é uma delícia, mesmo que só o vejam com o acompanhamento da sexta camada. As minhas duas próximas semanas podiam ser assim, calava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 26 de Janeiro de 2008</p>
<p><a href="http://www.rorrimkcalb.com/arcadefire.html">Delicioso</a>. Ouvir as diferentes combinações das camadas que uma música que conhecemos de trás para frente tem é, outra vez, <a href="http://www.rorrimkcalb.com/arcadefire.html">delicioso</a>. E o vídeo, amigos, o vídeo é uma delícia, mesmo que só o vejam com o acompanhamento da sexta camada. As minhas duas próximas semanas podiam ser assim, calava o exame de Strategic &amp; Operations Management na terça-feira, seguía o mesmo raciocínio para os exames de Foundations of Business Administration e International Management with Case Studies na quinta feira, e era um rapaz feliz nas suas duas últimas semanas como ERASMUS.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00165.jpg" /></p>
<p>O quarto está meio despido. Nos intervalos do estudo e das leituras de artigos vou tirando as fotografias que pintaram as paredes por cinco meses, arrumando o que quero levar e o que por cá vai ficar. Dia oito estou de volta, para o bem e para o mal, vão ter de levar comigo outra vez. Passou num instante. Ainda está a passar digo. Mas já toda gente se olha como se isto estivesse a acabar, já se dão abraços de despedida prolongada, já se combinam visitas lá para Março, Agosto e afins. E também já se prepara o que virá após as duas semanas. Vou fazer um trabalho de investigação sobre detecção de tendências em blogs. Tenho lido bastantes artigos de investigação científica e, estranhamente, tenho retirado algum prazer disso. Vou fazer um trabalho não remunerado mas vou a cima de tudo - penso, espero - gostar de o fazer. A ver. E agora calo-me, que não estou com grande espírito para escrever. Uma vez mais, <a href="http://www.rorrimkcalb.com/arcadefire.html">delicioso</a>.</p>
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		<pubDate>Mon, 21 Jan 2008 16:33:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nürnberg, 21 de Janeiro de 2008
Foi há oito anos. Para os mais velhos pode não parecer muito, mas para mim é mais de um terço da minha vida. Sim, já foi há muito tempo. Foi a Diana. Onde é que ela estará hoje? Porque é que as pessoas perdem o contacto uma das outras com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 21 de Janeiro de 2008</p>
<p>Foi há oito anos. Para os mais velhos pode não parecer muito, mas para mim é mais de um terço da minha vida. Sim, já foi há muito tempo. Foi a Diana. Onde é que ela estará hoje? Porque é que as pessoas perdem o contacto uma das outras com tanta facilidade? Ela tinha-te em grande estima, sabes disso, certo? Aquela miúda nunca falhou. Passou a Diana e ficamos nós. Veio uma e outra e ficamos nós. Apareceu a música, começaram os concertos, os festivais e as tendas partilhadas. Tem graça pensar como corríamos pela poeira fora, permanecíamos deliciados durante horas e horas por baixo de um sol de fornalha só para sentir um pouquinho mais do que todos os outros. Enquanto os oito anos passavam, era em ti que eu descarregava tudo o que me ficava entalado cá dentro. Nunca falhaste. Não merecias, ninguém merece. Que cliché tão verdadeiro, não é? Merda. Não te posso dar um abraço e dizer que vai ficar tudo bem, mas posso-te deixar uma mão amiga a tentar forçar um sorriso. Este é para ti.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00164.jpg" /></p>
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		<pubDate>Fri, 18 Jan 2008 17:11:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nuremberga, 18 de Janeiro 2008
Tinha desiludido a Anne há coisa de duas horas. Tenho de me lembrar diariamente que não se fazem promessas, porque acabamos sempre por não cumpri-las. Eu, mais do que ninguém, devia sabê-lo. A meio da tarde, por entre filas intermináveis de queijo Gouda e compotas biológicas, ela apanhou-me distraído e largou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nuremberga, 18 de Janeiro 2008</p>
<p>Tinha desiludido a Anne há coisa de duas horas. Tenho de me lembrar diariamente que não se fazem promessas, porque acabamos sempre por não cumpri-las. Eu, mais do que ninguém, devia sabê-lo. A meio da tarde, por entre filas intermináveis de queijo Gouda e compotas biológicas, ela apanhou-me distraído e largou um dos seus sorrisos de criança. &#8220;Ontem exagerei um bocado na bebida, não?&#8221;, perguntei-lhe enquanto tentava decifrar que levar para quando a fome apertar a meio do dia. Ela soltou uma gargalhada, revirou os olhos e continuou o seu caminho em direcção aos congelados. Eu segui-a. Sim, a noite anterior tinha começado ainda o sol ia alto. Era o último dia antes de começar a maratona de duas semanas de estudo intensivo para os exames e eu comprometi-me a não saber de cor o meu número de telemóvel alemão por volta da hora de jantar, o que, devo confessar, foi uma tarefa fácil especialmente porque, com a ajuda dos meus vizinhos, brincadeiras destas são jogos de crianças. Lembro-me que já a noite ia desesperadamente longa e, enquanto uma Francesa e duas Polacas esperavam por mim entre o meu quarto e a porta do apartamento para continuarmos a alcoolemia noutro sítio, eu mirava entretido a prateleira onde guardo o pão e perguntava-me o que teria acontecido à apetitosa baguette que tinha comprado durante a tarde, ignorando por completo o rebanho de pequenas migalhas que banhava a mesa, junto a um pacote de manteiga devastado. Acontece então que, como é normal, o meu dia seguinte foi facilmente suportado à base de resumos de textos monocórdicos sobre integrações empresariais e uma grande chávena de chá a pedir recarga a cada trinta minutos. Como rapaz nervoso que sou, assim que me chateio de estar em casa a estudar vou ao supermercado. É recorrente encontrar gente que conheço por lá e é também bastante normal dizer que sim &#8220;vamos lá para os copos esta noite&#8221; de cada vez que mo perguntam. Sai-me naturalmente, é coisa que não evito, dizer que sim a conversas que não levam a lado nenhum regada por algumas cervejas. Ora, hoje devia tê-lo evitado. Ela tem os queijos como testemunha, sei que lhe disse que íamos comprar qualquer coisa à simpática senhora do Imbiss chinês ali da esquina, que não nos podíamos esquecer dos pauzinhos - porque tem muito mais piada comer comida desconhecida com objectos desconhecidos - e que quando estivéssemos satisfeitos com a comida e fartos da conversa que o meu colchão proporciona, íamos ao bar da residência beber qualquer coisa. E é aqui que eu falho. Porque se às quatro e meia da tarde a ideia de sair à noite para uns copos me parece formidável, é só quando a altura chega que as minhas pernas perdem todas as energias, talvez proporcionadas por uma noite de pouco sono, e tenho de dizer que afinal já não estou para aí virado, vamos dormir? Ou melhor, primeiro digo que não sei, que já te digo. Depois, quando pressionado e enfeitado com adjectivos femininos, digo que não. E depois tenho de ver a cara, neste caso uma cara de menina francesa de olho bonito, virar para a desilusão. Sou bastante parvo, certo? Mas não era disto que eu queria falar. É que depois disto, aconteceu o seguinte.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00158.jpg" /></p>
<p>Tinha desiludido a Anne há coisa de duas horas. Já dormia, ou dormitava. Sei que só entendi que duas horas tinham passado quando, depois do acto relâmpago, olhei para o relógio e voltei a cair em sono profundo. De repente a escuridão do meu quarto é interrompida por uma descarga de luz vinda do corredor, uma figura que se assemelhava à estátua da liberdade, queixo erguido e uma mão estendida no ar - que no lugar da tocha ostentava, pelo cheiro, erva, - e aos meus ouvidos chega um ruído imperceptível. No momento em que me levantei, a figura, perdendo todo a sua postura estóica e ganhando proporções de assombro, larga um pequeno berro e pergunta-me como é que eu consigo dormir de tronco nu em pleno inverno alemão. Eu, ainda sonâmbulo, aponto-lhe para o aquecimento central e pergunto o que raio se pode passar para me acordarem e porque raio é que não fechei a porta à chave. O Ben, era o Ben, entra no quarto, dá uma longa passa na sua tocha, e sem conseguir estar quieto com a cabeça conta-me de trás para a frente a aborrecida história da noite dele, desde que estivemos todos na conversa enfiados no seu quarto, até ao momento em que entrou no meu quarto, regressado do bar da residência. Já no fim, quando eu estava a perder o fio á meada. Pôs a mão no meu ombro peludo - do qual por essa altura já tinha perdido o medo - e disse-me que tinha dito à Vietnamita - ele gosta de achar que a Jin Hee é do Vietname - e à Francesa que me deviam vir cá dar uns beijos para eu ir par o bar com eles. Agradeci-lhe o gesto, e disse que estava com uma vontade incrível de dormir. E aqui vem a parte estranha, porque ele olha para mim e, tentando transmitir um pouco de seriedade aos seus movimentos, diz-me qualquer coisa como &#8220;Phaaa&#8230; Pedro, és o gajo mais normal que conheço. Até amanhã, paz.&#8221; Abraça-me, e vai-se embora para o quarto dele onde a namorada o esperava para mais uma noite de um simpático descontrolo nas estruturas do prédio.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00159.jpg" /></p>
<p>Esta história não tem moral. Mas o que é certo é que nunca me tinha visto por esta perspectiva. Sempre quis ser muita coisa que não sou, nos últimos tempos mais do que nunca, e acho que devia definitivamente confrontar-me com o facto de que sou normal. Se calhar é isso, sou o mais normal. Mas normal. E ser normal não é mau, é? Pelo menos não sou anormal, certo? Tenho de investigar melhor. Tem graça. Já vos disse que vou ser investigador? É verdade, e acho que vai ser uma boa experiência. Mas isso fica para amanhã. Ou depois, que não ando com humor para escrever aqui. Afinal de contas, está tudo a acabar. E a verdade é que eu dava tudo para que não acabasse. Haverá algum mal em não querer voltar? Acho que é normal.</p>
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		<pubDate>Thu, 10 Jan 2008 12:15:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Nuremberga, 10 de Janeiro de 2008
Até agora não fui rapaz de comentar notícias nestes textos, mas como a alternativa é falar de drogas e sexo - o que ao momento, dada a assiduidade com que a minha família me lê, em nada se parece com uma solução - resolvi quebrar barreiras, saltar por cima de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nuremberga, 10 de Janeiro de 2008</p>
<p>Até agora não fui rapaz de comentar notícias nestes textos, mas como a alternativa é falar de drogas e sexo - o que ao momento, dada a assiduidade com que a minha família me lê, em nada se parece com uma solução - resolvi quebrar barreiras, saltar por cima de arbustos, ervas daninhas, lixo tóxico e afins, e tudo para dizer o seguinte. A partir do momento em que leio <a href="http://sic.sapo.pt/online/noticias/pais/multimedia/rota+de+colisao.htm" target="_blank">aqui</a> que um maçarico-de-bico-direito está a por em causa a construção do novo aeroporto - que agora, ao que parece, já é na margem dos camelos - torna a minha tristeza por voltar ao nosso acarinhado país uma questão demasiado simples para ser confrontada com porquês e derivados. A sério. Maçarico de bico direito? É que estamos sempre a aprender. E a esquecer, em nome de uma boa saúde mental.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00161.jpg" /></p>
<p>Foi algo de estranho o que aconteceu hoje. Estávamos a meio de uma aula, eu estava a expressar a minha opinião reservada sobre aquilo que vou fazer nos meses ou par de anos que se seguem. Tentava explicar a todos o que é muito simples de explicar. &#8220;Porque não sei, de facto, o que quero ser quando for grande&#8221;. E não foi estranho o ter dito isto a um mar de desconhecidos, nem se quer à simpática professora que me ouvia. Inquietante foi a resposta dela, também para a turma toda ouvir, de que o que na ideia eu deveria fazer era tirar um Doutoramento dentro da minha área de estudos e vir para esta Universidade dar aulas. Que ela me gostava de ter aqui. Ela é, ou vai ser, a próxima vice-reitora. Sabem, sei como sou, se visse algum fundamento plausível neste desabafar de palavras nunca me daria ao trabalho de as pôr aqui. Nunca falo daquilo que sei que vai acontecer, só das possibilidades que deixo para trás. E esta há de ser uma delas porque, como lhe tentei explicar, o rapaz comunicativo e simpático que ela conhece não foi fadado para dar aulas. Aulas relacionadas com o meu curso, pelo menos. Bom, mas o estranho aqui é mesmo ter ouvido algo vindo de uma pessoa extremamente ponderada que me apanhou completamente de surpresa. Disse-o com uma sinceridade que me desarmou, deixou-se disponível para eu falar com ela sempre que quisesse, durante os próximos anos, caso achasse que era uma coisa em que devia apostar. Nunca o vou fazer, apesar de que acho que é neste ano de 2008 que devia apostar nos postais e telefonemas de natal para nunca perder o contacto de tanta gente boa que conheci. Não obstante, ouvir alguém confiar em nós de uma maneira tão livre como ela o fez foi algo que me marcou o dia. Escrevi-lhe isso na nota que tínhamos de dar como feedback à disciplina em questão. É uma pessoa que dá prazer ouvir falar, de entender como leva a vida de uma forma tão comprometida e, ainda assim, feliz. Nada vai mudar nas minhas convicções à cerca de quem sou e do que poderei fazer, mas penso que hoje, pela primeira vez, senti convicção fundamentada nas minhas capacidades, nas capacidades do murcão irresponsável e trapalhão que conheces. Foi bom, e fica aqui para me aumentar o ego e fomentar a auto-absorção que é este blog e que, regra-geral, são os meus pensamentos. Juro que agora me apetecia falar de sexo e drogas leves. Um pouco de álcool também. E porque não de café e música popular, para juntar tudo no mesmo saco. Para dizer a verdade, até já tenho o texto escrito e, digo-vos, a ideia dava um livro daqueles de qualidade pouco duvidosa. Mas acho que a minha mãe e o meu pai não iam encarar a conversa com grande facilidade e felicidade. Eles que me digam, se quiserem. Um abraço, e feliz ano novo.</p>
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		<pubDate>Thu, 20 Dec 2007 10:15:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Nürnberg, 20 de Dezembro de 2007
Muito bem, vamos por partes. Há coisa de um mês comprei um disco externo para ter sítio onde guardar as quantidades pornográficas de música e fotografias que diariamente me faziam receber avisos de limite de espaço em disco. Um problema resolvido, portanto. Uns meses antes, a minha mochila cinzenta, bonita, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 20 de Dezembro de 2007</p>
<p>Muito bem, vamos por partes. Há coisa de um mês comprei um disco externo para ter sítio onde guardar as quantidades pornográficas de música e fotografias que diariamente me faziam receber avisos de limite de espaço em disco. Um problema resolvido, portanto. Uns meses antes, a minha mochila cinzenta, bonita, prática e confortável sofreu um inexplicável revés na amigável companhia que me fazia às omoplatas, quando o seu fecho decidiu começar a abrir sem anuncio prévio e mão competente que o quisesse abrir. No entanto, graças ao milagre da existência que são as avós, um alfinete no sítio certo e o fecho parou de abrir sem que eu lhe pedisse. Outro problema resolvido, lá está. Com outro salto no tempo, chegamos à manhã de ontem, onde depois da aborrecida apresentação acerca dos recursos humanos da disney europa Professor e alunos começaram a beber Sekt (que é como quem diz Espumante nesta complicada língua) e Vinho Quente a acompanhar uns deliciosos Lebkuchen de chocolate. Ora, chamem-nos parvos, mas como bons ERASMUS que somos, sem aulas para aborrecer o resto do dia, agarramos em quatro garrafas à toa e fomos para um canto bebê-las descontraidamente. Eram onze da manhã e já estávamos todos Germanicamente entusiasmados. E vocês já sabem que, regra geral, quando eu estou entusiasmado salto mais do que o que é normal.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00160.jpg" /></p>
<p>Bom, certo é que a caminho da casa de um dos Alemães, dei por mim com a mochila aberta. O meu estado de espírito foi completamente abalado quando dei pela falta da merda do disco. Meninos, façam backups. A sério. Eu não vou fazer porque comprar para comprar outro disco de 230GB prefiro pôr-me ali à frente de um ICE e esperar que o céu seja um lugar perfeito, mas olhem, se poderem vá, façam cópias daquilo que prezam, digitalmente falado. Mas a parte boa, quando à pouco fui tentar a minha última solução, que era o simpático porteiro da faculdade, o senhor ouviu a minha descrição do bicho e com um sorriso na cara, entregou-mo em mãos. Sabem, acho que ele nunca se vai esquecer do beijo saltimbanco que a bochecha dele recebeu. Já ganhei o dia. Bom, já tinha ganho com uns votos de feliz natal adiantados dados pela minha mãe e pela martinha, mas o que é certo é que agora já não me sodomizo mais por ter perdido coisas que, talvez de um modo bastante infantil, tanto valor dou. (:</p>
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		<pubDate>Mon, 17 Dec 2007 14:45:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Nürnberg, 17 de Dezembro de 2007
Sabem, adoro esta coisa de ser uma pessoa completamente fútil. Tenho vinte e dois anos e nunca fiz nada de jeito com a minha vida, queixo-me quando tenho trabalhos longos e entediante pela frente, registo diariamente como estou no curso errado e como devia ter nascido num sítio onde a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 17 de Dezembro de 2007</p>
<p>Sabem, adoro esta coisa de ser uma pessoa completamente fútil. Tenho vinte e dois anos e nunca fiz nada de jeito com a minha vida, queixo-me quando tenho trabalhos longos e entediante pela frente, registo diariamente como estou no curso errado e como devia ter nascido num sítio onde a minha arte de dormir de papo para o ar fosse bem compreendida. Mas há uma coisa que eu sei fazer muito bem: ler. Ontem acabei o &#8220;To Kill a Mockingbird&#8221; e hoje já comecei às gargalhadas a tentar entender o inglês cómico do David Sedaris. Até agora valeu-me pelo menos uma dúzia de gargalhadas num Starbucks cheio de gente a comer bolos tamanho calórico industrial em plena hora de almoço. Um pouco antes, enquanto perdia hora e meia da minha vida a escolher onde gastar melhor uns quantos euros em livros, uma senhora muito pouco alemã, com os seus quarenta ou cinquenta anos, daquelas negras bonitas e sorridentes, vestes largas e coloridas, lenço com motivos botânicos a cobrir a carapinha, veio ter comigo e num inglês algo arranhado mas completamente compreensível pediu-me carinhosamente que lhe apontasse um livro para ela oferecer ao filho no Natal, &#8220;porque gostava que ele começasse a ler coisas boas&#8221;. Ó pobre diabo. É que eu gosto muito de ler, porque aprendo coisas novas que geralmente rapidamente esqueço, e muito certamente porque ler faz com que o tempo não doa, mas saber que livro dar a um miúdo de dezasseis anos para que ele ganhe o bichinho da leitura? Isso já é complicado para mim.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00163.jpg" /></p>
<p>Não gosto de catalogar, não o sei fazer. Não faço ideia do que é bom para ou mau para. O primeiro livro que me saltou à vista foi o On The Road, do Kerouac, mas era uma chatice se a mãe dele vinha das Áfricas até ao meu poiso só para me dar uma tareia por eu fazer o seu filho sonhar em ser um tresloucado Dean Moriarty. Desviei por isso rapidamente os olhos da letra D e fui saltar no C de Chabon. Peguei com confiança e sem segundas leituras no The Amazing Adventures of Kavalier &amp; Clay e depois desci até ao Cormac McCarthy para pegar no pequenino The Road. Assim a minha mente relaxava daquele nervoso desesperante de lhe querer dar o On The Road. Apenas caía um pequeno pedaço do nome, certo? Além disso o livro do McCarthy enternece qualquer coração meloso com aquela história de pai e filho e, quem sabe, o miúdo até lhe dava algum valor. E não quero saber que tenha sido a Operah a indicar-me o livro, até podia ter sido a Carolina Salgado - ou uma outra qualquer personagem mais actual do panorama azeiteiro-deprimente do nosso país. Então voltei-me para a senhora - e raios se não devia ter-lhe pedido o nome de tão simples e carinhosa que ela era! - e pedi-lhe que escolhesse entre as seiscentas e quarenta e seis páginas de letra miudinha ou as duzentas com espaçamento generoso. Ela ofereceu-me um sorriso e disse que levava os dois, desejando-me um bom natal. Meia hora depois, comigo ainda à volta do que escolher, voltou e perguntou-me timidamente se tinha encontrado mais algum. Eu, que tinha finalmente há coisa de minutos passado os olhos pelo The Life of Pi, que não tinha encontrado por não saber o nome do autor - Yann Martel, Yann Martel, Yann Martel! - num gesto rápido e eficaz colhi o livro da prateleira e disse que daquele eu tinha a certeza que o miúdo, fosse lá ele de que género fosse, ia de facto adorar. Espero que não me engane. Para mim, acabei por pegar em quatro e rezar para que a conta alemã ainda tivesse dinheiro lá dentro. Diz-me o saco de plástico esbranquiçado que comprei John Banville, «The Sea» e, noutro registo, Nick Horby «A Long Way Down», Dave Eggers, «How We Are Hungry» e finalmente aquele que comecei a ler, &#8220;Me Talk Pretty One Day&#8221; do David Sedaris. Sim, adoro esta coisa de ser uma pessoa completamente fútil. É que posso muito bem vir a ser uma nulidade para o evoluir da sociedade, uma vergonha para o papai e para a mamãe, uma frágil memória na cabeça de cada uma das pessoas que tenho espalhada pelas paredes no quarto, mas o que é certo é que gosto desta coisa de sorrir às pessoas que me miram embrulhadas em pensamentos confusos quando me deixo afundar nos sofás dos cafés, gosto de sair para os zero às vezes enervantes graus desta terra e largar cachecol, luvas e gorro só para sentir o frio a estalar com os meus inatos tremores, sinto-me bem quando respiro fundo e com alguém a cantar-me ao ouvido ou a sussurrar-me a meio dos pensamentos, olho para este céu que decidiu ficar azul por uns dias e sentir-me vivo. Porque estas ocasiões são raras, porque já ninguém se sente vivo e disso sim, deviam ter todos vergonha. É fútil, é uma pena, mas é bom. E como eu infelizmente não consigo balançar as coisas, não consigo ter estes momentos e ao mesmo tempo entender os modelos e integrações empresariais, os sistemas distribuídos e tudo mais, então tenho é de passar por estes momentos e agarrar-me a eles de uma maneira muito mais forte do que qualquer sabedoria me pode dar. Pode ser que um dia ser assim me traga algum proveito. Uma futilidade proveitosa, quem sabe?</p>
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		<pubDate>Sat, 15 Dec 2007 10:52:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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Oito da manhã. Do fundo dos meus olhos enremelados entendo que alguma coisa está mal. Está sol. Sim, está sol, afinal há duas coisas erradas. A primeira, já não é noite, os candeeiros já não me iluminam a bandeira, significa que adormeci, não acordei às quatro da manhã e ainda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 15 de Dezembro de 2007</p>
<p>Oito da manhã. Do fundo dos meus olhos enremelados entendo que alguma coisa está mal. Está sol. Sim, está sol, afinal há duas coisas erradas. A primeira, já não é noite, os candeeiros já não me iluminam a bandeira, significa que adormeci, não acordei às quatro da manhã e ainda não é hoje que vou passear a Dresden. A sério, era mudar o nome do Garfield para Pedro e ninguém notaria a diferença, gordos e preguiçosos. A segunda, é que lá está, faz sol. E aqui não se trata do problema de fazer sol porque a noite já vai longe mas sim de fazer sol porque não há nuvens no céu. Estava com saudades do sol, e não sabia. Saio da cama e tomo um banho rápido, a água continua a escorrer pelo cano a baixo o que é sem dúvida algo que me alegra as manhãs. Confesso que é muito mais agradável tomar estes banhos sem a água pelos joelhos. Troco uma conversa curta com o Cole que lê o jornal, ainda mais ensonado que eu. Diz que este fim-de-semana não vai a casa, os amigos vêm cá para ver a feira de natal. Digo-lhe que tem sorte, solto-lhe um sorriso, dou um trago no café e ficamos calados durante o resto do tempo. A relação que se forma com as pessoas com quem partilhamos uma casa é algo de extremamente interessante. Não fazemos a mínima ideia de quem os outros são, revoltamo-nos com a maneira como nos estragam o dia quando entendemos que todos resolveram deixar a loiça por lavar, pegamos em tudo o que podemos para nos rirmos uns dos outros e das nossas diferenças mas, no fim, sentimos que tudo está perfeito assim, que somos uma pequena, insustentável e pouco convencional família de amigos. O portátil. O portátil lá seguiu ontem para uma tal cidade de Karlstein, algures aqui na Alemanha, enrolado em muito plástico com bolhinhas e com a minha morada escrita duas vezes, para que não haja confusões. Se acontecer o mesmo que à máquina fotográfica, vou ficar sem o bixo durante dois meses. Peço desculpa, mas é uma péssima altura para ficar tanto tempo sem portátil. Ao entrar na Faculdade, à pouco, vi que vão estar fechados de dia vinte e dois até dia um de janeiro. Parece que vou andar desaparecido destas lides por uns tempos. Desalentado, dou uma vista à lista de estágios que cresce a cada dia na página da minha Faculdade. Sinto-me triste por ver a hipótese de fazer o estágio fora do Portugal desaparecer à medida que as semanas passam. Ainda não liguei para Amesterdão a dizer que infelizmente não vai dar. Sabem, criar expectativas sem se saber o que o futuro nos reserva é, sem excepção, uma merda. Leio as propostas da minha faculdade e fico agradado por algumas, adiciono uma delas ao cesto de possibilidades, pondero algumas mais e deixo o resto das decisões para mais tarde. Não queria voltar. Por mim, agarrava-me a esta cidade e não saía daqui.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algo-meu-00162.jpg" /></p>
<p>Ontem fiquei em cima de uma das pontes, queixo apoiado pelos cotovelos, a pensar como esta cidade por muito aborrecida que às vezes possa ser é um daqueles cantinhos que vou ter para sempre. Alem disso os patos que andam pelo rio são agora todos eles meus grandes amigos. Não sei como é que me vou despedir deles. Aos poucos, acho. Uma nota ainda para o post anterior. Foi a minha tentativa frustrada de às duas da manhã explicar no que consistem as nossas noites de quinta-feira. Na volta vou sentir mais falta delas do que dos patos, não sei. Over and out.</p>
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		<title>#33</title>
		<link>http://pedro.aloneinkyoto.net/2007/12/12/33/</link>
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		<pubDate>Wed, 12 Dec 2007 22:21:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Nürnberg, 12 de Dezembro de 2007
Faz-se tarde, penso para os meus botões. Despeço-me do fumo e confusão do bar para abraçar a chuva, inspiro fundo a noite e dirijo-me para a primeira rua escura que julgo não reconhecer. Perco-me no labirinto de paralelos mal recortados e casas medievais barrigudas, subo os ombros na procura por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 12 de Dezembro de 2007</p>
<p>Faz-se tarde, penso para os meus botões. Despeço-me do fumo e confusão do bar para abraçar a chuva, inspiro fundo a noite e dirijo-me para a primeira rua escura que julgo não reconhecer. Perco-me no labirinto de paralelos mal recortados e casas medievais barrigudas, subo os ombros na procura por um pouco mais de calor, atravesso em passos atrapalhados as poças que sorrateiramente vão aparecendo aqui e ali, encanto-me pela luz trémula que a estrada reflecte dos faróis dos carros que vão passando pela estreita ruela que a muralha milenar abraça. Rapidamente entendo que não faço ideia onde possa estar e sorrio aos parapeitos vermelhos de madeira que vou descobrindo. Uns passos mais e de uma das janelas vejo uma mulher que mira o vazio, os enormes peitos descaídos num sinal que o negócio podia ir melhor. A visão repete-se durante mais meia dúzia de janelas, até que os néones vermelhos desaparecem e a pacatez católica volta ao lugar. Depois vem um pequeno cedro, dois castanheiros, a imponente ponte de madeira de onde setas voavam em direcção aos que se queriam longe, é agora a vez do túnel escavado na pedra e finalmente o reconhecível barulho dos carros a deslizarem pela estrada encharcada. Estranhamente, aqui não chove torrencialmente. Estranhamente, aqui a chuva é amiga, faz-me cócegas na cara e diz-me que não me vai deixar sentir desconfortável. Com o frio é a mesma coisa. É tão tarde. Sim, deve ser mesmo tarde. Evito olhar para o relógio e sigo em frente. A esta hora devem continuar todos no bar, a beber e a tentar levar alguém para a cama o mais depressa possível para que a noite acabe com uma boa história para contar. Uns vão se lembrar de tudo no dia seguinte, outros vão fazer de conta que nada se passou e uns poucos vão realmente passar ao lado da noite, do dia e, muito provavelmente, de tudo o resto. Perguntaram-me porque me vim embora e eu respondi que se fazia tarde, que era mesmo isso que pensava para com os meus botões.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00156.png" /></p>
<p>Na verdade não foi nada disso. Já tinha conversado com todos, rido e abraçado cada um deles e agora era tempo para fazer o que mais gosto, esta coisa de estar sozinho, de não ter nada que me amarre a lado nenhum e de não ter de passar o resto da noite no bar para saber se o desfeche com aquela empregada de olhos azuis podia ser outro ou não. Será que precisamos mesmo disso? Uma e outra vez? Só para provarmos que estamos mais vivos do que aquele pobre coitado que está enterrado em bebida e erva mesmo ao nosso lado? Faz-se tarde. Sim, faz-se tarde. E a cerveja pode ser muita e dar larga aos sorrisos dos outros, mas o meu está sempre aqui e só não o puxa quem não quer. Ouviste? Só não o puxas se não o queres. Por isso puxa. E então largo-o a ele e largo-a a ela, dou dois beijos desengonçados como os são na maioria aqueles que damos em regime de emigrante, digo até amanhã e salto para o frio e para a chuva. Eles gostam desta minha coisa de andar pelas ruas escuras e desertas só para ver o que nunca antes tinha visto. Aparece outra mulher, de copa mais pequena mas mesmo assim trazidos à terra pela força mãe da gravidade. Enfrento-a nos olhos e pergunto-me o que a terá conduzido até a uma janela ofuscante e um pouco de cetim. Mantenho o passo certeiro e relaxado que me leva uma hora a chegar até casa, cruzo as praças e ruas que de dia se enchem de gente, aceno ao homem que varre o passeio, continuo em direcção ao nada.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00157.png" /></p>
<p>Faltam dois meses para deixar todos estes segredos que me agarraram, a padaria do pão que sabe a mel, a faculdade dos vidros encantados, o parque das árvores nuas e dos corajosos barrigudos que como eu por lá ainda correm, os incansáveis manifestantes em frente à Lorenzkirsche, os sofás violeta das minhas leituras, os semáforos que me fazem desesperar, os meus vizinhos e o abastecimento de festas na cozinha que me vai chegar para uma vida. Têm sido meses calmos, extremamente calmos em comparação com vidas lá para os lados do Alentejo ou do Minho, mas têm sido meses extraordinários dos quais já sinto a falta. Não quero sair daqui, não quero. E o saber que daqui a pouco já tenho de me ir embora faz-me sentir dentro de um comboio prestes a descarrilar em direcção a um assustador penhasco. Eles continuam no bar de veludo pele de tigre a fazer a sua festa e a derreter os olhos na minha empregada de olhos azuis e roupa interior negra rendada. A Jin Hee continua com a sua bebida a meio e a Anne a fazer gestos obscenamente franceses para a câmara. Podia estar com eles mas não estou. Passo agora pelas barracas cobertas de lona do mercado de natal, pela fonte dourada que permanece iluminada, pelas enormes portas de madeira que me embalam para casa com uma voz de fada a cantar-me ao ouvido. Sempre com a voz dela a cantar-me ao ouvido, a dizer que volte. A fada traquina que num abrir e fechar de olhos pode desaparecer. Não desapareças. E já está, agora é ele que pega na guitarra e canta, canta baixinho mas num tom certeiro, e pede para que eu me continue a divertir, mas que volte pela noite quando acabar de sentir a vida na pele. Está bem, eu volto. Porque sim, tenho muito de novo para contar, penso para os meus botões. Mas agora ainda aqui estou, olho o banco molhado e sento-me por um bocado a encher o vazio do parque. Um corvo resistente ao sono pula ao meu lado, insistindo em fazer um pouco de companhia. É a ele que hoje conto as minhas confusões. É a ele que explico como é incrível a quantidade obscena de saudades que vou ter de tudo isto. A quantidade estúpida de saudades que já tenho. E no entanto, ele bem vê, este sorriso detém-se incontrolável.</p>
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		<title>#32</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Dec 2007 20:30:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Nuremberga, 4 de Dezembro de 2007
Vamos lá percorrer os factos mais recentes da minha vida. Há uns mais básicos. Coisa boa. Ter pegado na máquina do espanhol e repetido a façanha de Fevereiro. Ele volta a crescer. Coisa não boa. O frio nas orelhas, mesmo com o gorro bem enfiado na cabeça. Coisa boa. O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nuremberga, 4 de Dezembro de 2007</p>
<p>Vamos lá percorrer os factos mais recentes da minha vida. Há uns mais básicos. Coisa boa. Ter pegado na máquina do espanhol e repetido a façanha de Fevereiro. Ele volta a crescer. Coisa não boa. O frio nas orelhas, mesmo com o gorro bem enfiado na cabeça. Coisa boa. O mercado de Natal no centro da cidade, é delicioso e apaixonante, mas merece um texto só para ele. Coisa não boa. Os voos para Portugal durante este mês custam mais do que fazer um interrail. Coisa boa. Um interrail custa menos do que voar para Portugal, e Narvik é já ali ao virar da linha. Isto significa que, a manter esta quase-ideia, vou ter de continuar a poupar na cerveja.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00151.png" /></p>
<p>Depois há uns mais extraordinários. Coisa boa. Pela primeira vez em noventa dias tomei um banho na minha casa de banho sem ter água pelos gémeos. Confesso que me estava a acostumar a isto de ter os pés em constante imersão sempre que pela manhã me enfiava de baixo do chuveiro, mas bem vistas as coisas, aquele grito final da canalização da minha casa que decidiu fazer crescer uma fonte romana do ralo de escoamento pedia medidas extremas. Felizmente o senhor Hausmeister, que desde o primeiro dia em que eu reclamei pelo estado artístico da cozinha me tem vindo a detestar, teve o bom senso de arranjar a canalização. Conclusão, hoje a água escoou direitinha e eu não tive de imaginar que raio de bicho esquisito e peludo deveria estar no meio dos canos a entupir a passagem de água.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00152.png" /></p>
<p>Coisa não boa. A magnífica bateria do meu iPod decide durar aproximadamente treze minutos. Isto significa que a minha cabeça anda a bater por tudo o quando é sitio. É especialmente sufocante aquela altura em pleno início de corrida em que os Flaming Lips se calam quando me estavam a marcar passo, e eu fico a correr no vazio, cara de cú entre as orelhas, a pensar para onde raio foi a música, e como pode a bateria esvaziar em tão curto espaço de tempo. Gosto de ouvir música durante o dia. Alias, preciso e ouvir música durante o dia. Os meus passeios inúteis e despreocupados pela cidade não são os mesmos sem a Nina Simone a sussurrar-me coisas bonitas aos ouvidos. Esta coisa da bateria do meu iPod ter dado o berro é intragavelmente preocupante. E o pior é que não estou a ver como é que vou solucionar este problema.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00153.png" /></p>
<p>Coisa boa. Hoje fui tomar o pequeno almoço com o Luís, a Ana, o Nuno e o Quelhas. Já os tinha visto ontem à noite no aeroporto e hoje apareceram-me à janela como felizes proprietários de um vaivém espacial da Chrysler que não lhes queria devolver a chave às mãos. A Ana queria Starbucks e eu fiz-lhe a vontade, junto ao Pegnitz, acho que tirando o facto de serem extremamente preguiçosos e se queixarem dos cinco minutos (!) que andaram a pé, gostaram do que viram. Agora devem andar a cirandar por Dresden. Eu cá os espero, no fim de semana, para lhes mostrar com calma a magia da minha pequenina cidade. A contrastar com isto, de vocês, tirando a Xica e a minha Vaca, nem um postal recebo. É que nem um. Diz que a morada é Sophienstraße 12-00-27 90478 Nürnberg, Alemanha. Mas se calhar é mentira, porque eu já a dei e o que é certo é que tirando os supracitados, correspondência só mesmo a do LIDL e do Deutsche Bank. Que vos caiam morangos a ferver em cima. A todos vós.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00154.png" /></p>
<p>Coisa não boa. É que se fosse só o iPod. Mas não. E pior que o iPod? Pois claro, o portátil. O meu portátil meteu-se nos ácidos. Vai daí, a imagem parece tiradinha de uma sessão de Joaninha na terra dos Cogumelos Mágicos. É que sem tirar nem por, o computador enlouqueceu. Mal o ligo, o ecrã fica branco. É que devia ficar preto, não? Não, fica branco. E depois o branco desvanece e torna-se um preto com muitas nuvens brancas. Eis que entra o Windows em acção e neste momento o meu magnifico LCD transforma-se em LSD e oferece-me o seu melhor azul-aberração. E a partir daqui é ver a taxa de refrescamento a passar-se da cabeça, as sombras a desaparecerem e os dois bonecos do Messenger a ficar da mesma cor. O Messenger. Sim, essa coisa que há uma semana deixou de funcionar, a fazer companhia ao Skype. Sempre que os ligo, lá se vai a Internet. Da última vez durou vinte e quatro horas sem ligação. Conclusão? A juntar aos três trabalhos que tenho para fazer esta semana, o outro trabalho que não sei se tenho de fazer ou não, as confusões todas que o estágio está a causar, ainda tenho que levar com um conjunto de circuitos de dois mil euros a passar-se dos cornos. Ele há dias de cão.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00155.png" /></p>
<p>Mas porque as coisas boas acabam sempre por fazer esquecer as não boas, <a href="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-music/brighteyes-firstdayofmylife.mp3">coisa boa</a>. Mas esta, sem ter de juntar mil palavrinhas que voam com o vento que existe entre aqui e ai. Até amanhã (:</p>
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		<pubDate>Thu, 29 Nov 2007 11:01:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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A vida aqui no frio. O sol levanta-se às sete e quarenta e dois da manhã. E é por volta dessa hora que, já depois de uma ou duas chávenas de café me queimarem um bocadinho mais o céu-da-boca, me lanço ao vento que carrega nos seus três graus negativos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 29 de Novembro de 2007</p>
<p>A vida aqui no frio. O sol levanta-se às sete e quarenta e dois da manhã. E é por volta dessa hora que, já depois de uma ou duas chávenas de café me queimarem um bocadinho mais o céu-da-boca, me lanço ao vento que carrega nos seus três graus negativos um bombardeamento de agulhas invisíveis. Fora da lã, malhas e afins, dois olhos muito despertos, um nariz feito gelo e duas bochechas assombradas pela atmosfera glacial desta minha cidade das fantasias. No caminho para a faculdade, ciclistas enfrentam o frio enquanto a maior parte se desloca de dentro dos seus carros climatizados. Eu prefiro andar. Já vai para cima de um mês que não pego na minha bicicleta. Assim consigo sentir mais as pessoas, não as vejo como um borrão que cedo foge da memória. Da sala de aulas, o parque que aqui há um mês era do mais verde que alguma vez tinha visto dá agora lugar a um manto de gelo que quer ser neve. Neve, essa magia que por aqui só se mostra aos fins-de-semana, nunca cobrindo a cidade com um manto branco, porque as nuvens teimam em ser de pouca dura. O céu teima em continuar azul celeste e eu enfrento o medo deste pensamento que tenho na cabeça. Venha o mau tempo, quero ver Nuremberga vestida de noiva. Cinco horas depois, à saída da Faculdade, o tempo continua igual. Frio, muito frio. Espero que a Magda acabe de fumar um dos seus finos cigarros polacos e mando-me para casa para meter qualquer coisa à boca. Barriga satisfeita, curiosidade pela caixa de correio e pelas histórias da noite passada dos meus vizinhos, salto para a rua. Por natureza, não consigo ficar quieto. Os meus joelhos crepitam por movimento, as minhas mãos tendem sempre a encontrar um qualquer pedaço de papel ou brinquedo em que se possam entreter. Não consigo ficar por casa, é o que quero dizer. Por isso mando-me para a rua e percorro ao frio o caminho que há quase três meses me tenho habituado a percorrer. Viro à direita na minha porta, desço a rua deserta passando pelos carros estacionados em cima do passeio, o prédio feito de madeira, o terreno baldio do lado esquerdo. Corto para a rua de tijolo vermelho que ostenta, brincalhona, um sinal de recreio em cada um dos seus extremos, desço até à entrada do primeiro túnel por baixo dos caminhos-de-ferro, que ignoro. Continuo pela pequena subida, sempre ladeado pela via de bicicletas, até ao túnel final, aquele dos relógios atrasados que me leva sempre até à alegria encantada que é ver o labirinto das linhas electrificadas do eléctrico, a confusão do maior entroncamento da cidade, a primeira grande torre da cidade antiga, o início da muralha de Nuremberga, o deslumbre diário. Depois da passagem subterrânea que me leva até ao início da minha cidade, tudo é maravilhoso, uma tranquila azáfama que me deixa diariamente de rastos. Por todo o lado se cruzam bicicletas com os seus ciclistas enchouriçados em enormes casacos, turistas desprevenidos que muito batem ao dente, miúdos que deambulam em matilha com os seus casacos de couro e espinhos, cristas rosas e verde-esmeralda, o máximo de cervejas que a mão que não segura o ente querido pode transportar, colegas de trabalho que se encontram para um café num dos centenas de bistros da cidade, pessoas como eu que se limitam a andar e a ouvir qualquer coisa que o gira-discos portátil lhes queira dar. É inicio da tarde mas o sol já se começa a escapar, o frio subsiste e ameaça agravar a minha condição de rapaz friorento que gosta de andar enrolado em roupa quente.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00149.png" /></p>
<p>Procuro o meu poiso capitalista junto ao Pegnitz, a empregada sorri com o meu alemão de sarjeta, devolve-me o especial de natal com nozes e caramelo que têm hoje para oferecer e o delicioso muffin de maçã e canela aquecido. Será que notou no meu arrepio enfadado quando o total final se iluminou na caixa? Pisco-lhe o olho, tomando partido da confusão de novas sensações que um gesto anormal confere a estas Alemãs de cabelo muito negro e olhos azul pérola e deixo-me afundar por cima de uma das pernas nos novos sofás da sala junto ao rio. É tempo de me perder. Há algo de celeste e enternecedor nesta coisa de não falar a língua do país onde estamos. Olhar e ouvir as pessoas, quase sempre sem as entender, leva-nos a prestar uma atenção excessiva à expressividade que todos adicionam às conversas, às mudanças de tons, aos olhares que fogem para a mesa ao lado, ao jeito cómico de pegar numa chávena maior que as mãos que a seguram, a forma sedutora e apaixonada de uns, maquinal e reflectida noutros, perdidamente triste noutros tantos. E depois, basta esquecermo-nos de que não falamos esta língua tão estranha, e a conversa começa a fazer todo o sentido. O trabalho não me correu muito bem, detesto isto que faço. Devias juntar-te ao meu escritório, ela conseguiu lá um lugar à pouco tempo e adorou. Já viste o gorro daquela miúda ali sentada ao canto, pergunto-me onde o comprou. Fui a Londres esta semana, não parou de chover, também foi assim quando lá estavas? Acho que estou apaixonado por ela, sabes? Mas não lhe posso dizer, está tão longe. Porque não lhe ligas? Acho que é isso mesmo que vou fazer. Olha, hoje encontrei um homem no eléctrico que não parou de conversar comigo, e acreditas que ele conhece o meu irmão? Não te esqueças de que ainda temos de comprar mais daqueles <a href="http://www.lebkuchen.nuernberg.de/englische_version/index.html" target="_blank">Lebkuchens</a> deliciosos.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00150.png" /></p>
<p>A noite já caiu à muito mas só agora, por volta das oito da noite, as lojas começam a fechar. Algumas estão abertas desde as seis da manhã. Despeço-me da minha cidade friorenta, das longas gabardines e das nuvens de palavras que saem para o ar gelado da boca de cada um, aceno um até já aos preparativos eternamente belos do <a href="http://www.christkindlesmarkt.de/english/" target="_blank">Christkindlmarkt</a> que vai começar já amanhã e, antes de ir definitivamente para casa, faço uma paragem numa das incontáveis bäckerei, padarias, desta cidade. Depois de escolhida a carcaça mais quente e escura da cesta, embrulho-a num saco de papel e encosto-a ao peito. Faço o caminho de volta até casa com o cheiro e o calor do pão acabado de fazer para me esquecer dos três graus negativos que agora fazem. Vendo bem as coisas, hoje não queria outra temperatura que não esta.</p>
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		<pubDate>Tue, 27 Nov 2007 11:11:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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ERASMISAR. Foi o que tive de fazer ontem, enquanto ouvia o S.C.I.E.N.C.E. aos saltos pelo apartamento. O Ben passou pela porta da casa de banho no exacto momento em que eu, em frente ao espelho, headphones extremamente colados aos ouvidos, dançava agora embalado a “Summer Romance”. Olhou-me de esguelha, sorriu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 27 de Novembro de 2007</p>
<p>ERASMISAR. Foi o que tive de fazer ontem, enquanto ouvia o S.C.I.E.N.C.E. aos saltos pelo apartamento. O Ben passou pela porta da casa de banho no exacto momento em que eu, em frente ao espelho, headphones extremamente colados aos ouvidos, dançava agora embalado a “Summer Romance”. Olhou-me de esguelha, sorriu e seguiu para a cozinha. Como bom vizinho que sou, fui pôr a música nas colunas do quarto e obriguei-o a dançar comigo. É que, deixem-me que vos diga, a semana que acabou estava a ter uma falha muito grave no que toca a Espírito ERASMUS. Era preciso ERASMISAR.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00148-ai.png" /></p>
<p>Trabalhos. O <a href="http://blogs.fe.up.pt/claudiogent/2007/11/25/procrastination-flow-chart/" target="_blank">Cláudio</a> falou no seu blogue sobre Procrastinação, a <a href="http://hull.facebook.com/profile.php?id=512679184" target="_blank">Nadya</a> diz no seu Messenger que é a Rainha da Procrastinação e eu, como amigo de palavras difíceis de dizer que sou, tornei-me o Deus da Procrastinação. Ou o Jesus vá. Pronto, vocês entendem. Vai daí, tomei a minha atitude modelo em época de entrega de trabalhos – que por estes lados se resumem a apresentações de uma hora sobre os Recursos Humanos da Adidas ou do Plano Estratégico da Samsung – e pus-me a ver DVD’s. Duas séries e três filmes depois, estava pronto para o plano seguinte. Dormir. E depois de dormir veio o elaborar na confecção de jantar. E quando não havia nada para fazer, ia lavar pratos, colar coisas na parede, ordenar as garrafas de cerveja pelo código de barras, traduzir mil e quinhentas palavras do livro que andava a ler de inglês para português, dançar descalço pela alcatifa, ir ao ginásio e dar uns socos valentes no velhinho saco de box, dormir outra vez. E foi assim que se passou uma semana. No entanto, ontem o dia correu-me extremamente de feição. Se não vejamos. Acabei o meu trabalho em três horas, onde conversei mais do que trabalhei com o Kostya, um Ucraniano de Odessa extremamente simpático que partilha comigo esta coisa de “Scheiße, é mesmo bom estar aqui! É mesmo mesmo muito bom estar aqui! Mesmo! Estes Alemães são um bocado parvos não são? Logo vi”. Ora, tendo alguma coisa em comum, o trabalho foi feito sem pressas e com muitas gargalhadas pelo meio. Depois, a fantástica notícia de que vou ter quatro exames, aos quais – wow – preciso de passar, em três dias. Delicioso. Também dancei no quarto. Já vos disse isso, certo? E também vos disse que nevou? Porque nevou, nevou muito, e eu fui todo lampeiro, camisola da selecção envergada, calção e chinelos, upa upa para a rua porque está a nevar. Filmezinho, fotografias, a neve lá para de cair e eu volto novamente à já falada dança de alcatifa. Pela noite, cinco ERASMUS a ERASMISAR pelas ruas de Nürnberg até ao bar aleatório desta Segunda-Feira, estamos de volta ao teu bom humor, sempre essa ideia na mente, é para lembrar o motivo, é que hoje eu sinto-me vivo, e seja por que motivo for, por que motivo for, por que motivo for. É só mais um começo. (:</p>
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		<title>#29</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Nov 2007 16:59:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nürnberg, 22 de Novembro de 2007
Uma semana depois dos últimos escritos, abro o portátil e começo a escrever. O dia de hoje foi um regresso à atmosfera invernal de Nuremberga, agora recheada por uma onda de luzes de natal, decorações de azevinho, homens conversadores que vendem vinho quente pelas ruas e um pequeno festival céltico [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 22 de Novembro de 2007</p>
<p>Uma semana depois dos últimos escritos, abro o portátil e começo a escrever. O dia de hoje foi um regresso à atmosfera invernal de Nuremberga, agora recheada por uma onda de luzes de natal, decorações de azevinho, homens conversadores que vendem vinho quente pelas ruas e um pequeno festival céltico ali para os lados da Weißer Turm, no centro da cidade. São 16:50 e o sol já desapareceu há algum tempo. Os dias aqui são cada vez mais curtos, as paredes que separam o dia da noite tentam esmagar-me com o meu queixume de falta de tempo, habituado a ter mais luz para gozar as tarefas que gosto ou tenho para fazer antes da diversão banhada pelas estrelas. O frio acalmou, o termómetro marca agora sete graus, o suficiente para me permitir deixar a janela aberta enquanto vos escrevo, ouvir os barulhos desta cidade que me derrete. Mas mesmo assim, é com um sorriso que recordo o banho que tomei aí, no Atlântico, há apenas quatro dias. Já vos disse? É que estive em Portugal.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00139.png" /></p>
<p>Quarta-feira, catorze de Novembro. O relógio desperta-me cedo para ir às aulas mas quando me levanto, não me apresso a tomar um pequeno-almoço que me deixe atento ao Prof. Thomson. Pelo contrário, espreito para a rua onde os primeiros flocos de neve do ano começam a pintar a cidade. Largo um suspiro amorfo, chateado com o facto de ir deixar Nuremberga no dia em que começou a nevar. Mas não há volta a dar-lhe, em poucas horas tinha de apanhar o comboio para Estugarda. Uma noite, madrugada e amanhecer depois, estaria de partida para o Porto. Enchi os sessenta e cinco litros da mochila até à rolha, tratei de não me esquecer de nada que me fizesse falta nos dias seguintes e mandei-me para a estação à hora de almoço. No comboio conheço o Dr. Heinz Weigold, um simpático senhor de sessenta e cinco anos, biólogo e professor reformado que me faz companhia durante as duas horas de viagem com uma simpática conversa em alemão. O meu alemão extremamente básico torna uma simples conversa numa montanha-russa de sorrisos e vergonhas inusitadas. A viagem é feita com uma paisagem pintada de branco, onde campos, pinhais e aldeias se escondem por baixo de um manto que me enche de vontade para saltar vagão fora e tentar ouvir da neve a explicação para este fascínio que lhe tenho.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00140.png" /></p>
<p>À chegada a Estugarda, o nevão tinha atingido um tom épico. Os flocos eram enormes e irregulares, as crianças sorriam com a neve na mão, as ruas não resistiam aos feitiços dos pequenos cristais. A cidade recebeu-me como eu nunca teria esperado. Sempre que perguntei a alemães o que havia para ver em Stuttgart a resposta foi sempre a mesma, “Tens a Mercedes e a Porsche. É isso”. Pois bem, não é nada disso. A cidade não é muito grande, sendo até mais pequena do que Nuremberga, mas a atmosfera é muito cosmopolita. Por todo lado, lojas de estilistas de renome, pequenos establecimentos gourmet e, claro, uma infinidade de automóveis de gosto, deixam-nos com o espírito consumista nos píncaros. No entanto, um controlo afincado na carteira e a visita torna-se fantástica. Os alemães de Estugarda vestem-se bem, atraem-nos e, para complicar a situação, vivem na capital de um dos antigos reinos alemães, o que significa ter bem presente a sua quota-parte de edifícios majestosos como a Stiftskirche ou o Neues Schloß. Embebido no espírito nocturno das ruas comerciais que se misturam com as fantásticas obras de arte, lancei-me a caminho do Aeroporto.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00141.png" /></p>
<p>Uma noite passada no Aeroporto tem sempre muito que se lhe diga. Ao chegar, por volta das nove da noite, fui fazer um pequeno reconhecimento de território. E por pequeno, entenda-se mesmo muito pequeno, porque o aeroporto de Estugarda, um dos hubs principais do sul da Alemanha não faz jus ao seu nome. Talvez do tamanho do Francisco Sá Carneiro mas com ainda menos movimento à medida que as horas vão flutuando no relógio, o aeroporto não tem muito por onde se lhe pegue, excepção feita às cativantes colunas em forma de árvores que sustentam o tecto do aeroporto e que lhe conferem um aspecto de floresta de aço, talvez inspirado pela proximidade à Floresta Negra. Encontrada a conclusão de que não havia muito para fazer, tentei dormir. Obviamente, graças ao meu eterno mau aspecto gadelhudo, vinte minutos depois estava a ser abordado por dois simpáticos cavalheiros polícias que me pediam uma identificação. Depois de entenderem que eu não constituía nenhuma ameaça assustadora para o catolicismo alemão, lá me deixaram a dormir deitado no banco corrido entre os terminais três e quatro. E foi depois de uma noite que ainda teve espaço para trocas de e-mails, conversas internéticas, uma paixão súbita pela loirinha que fazia tricot e trocas de palavras com quem passava, o dia abordou-me com mais um nevão que deixou o exterior do aeroporto completamente branco. Às nove da manhã o meu avião amarelo levantava voo. Lá dentro, um puto que era eu deixava-se derreter pela paisagem láctea que pintava o chão Alemão. Que país bonito este, mesmo visto lá de cima. No avião as saudades de Nuremberga já apertavam, com aquele nervoso miudinho de não saber o que esta gente estava a fazer, como estaria a minha janela, o meu rio, as minhas árvores e os meus patos pretos. Mas já não havia tempo para pensar nisso, o Douro estava à vista a dez mil metros de altura.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00147.png" /></p>
<p>Voar é lindo. Toda gente que já teve essa oportunidade entende-me. Quem não teve, também. Aquele aperto maravilhoso de sabermos que não temos nada por baixo de nós, a visão das sombras monumentais do lado nascente das montanhas, os carros que lá em baixo se movimento vagarosamente pelas estradas sinuosas, os campos e lagos que nos enchem a vista e as nuvens, essas nuvens que nos levam ao lugar-comum de vermos algodão no céu. Voar é lindo. E para ser perfeito, temos de aterrar na nossa cidade. Por muito bonitas que as outras possam ser, não como fazer uma pausa no voo para apreciarmos a nossa cidade. O piloto do sete três sete amarelo fez-me esse favor. A abordagem ao Sá Carneiro é a mais bonita que conheço. Porque primeiro vem o rio, as suas margens sulcadas e as suas barragens, tão efémeras lá de cima. Depois vem uma ponte, outra, a Dona Maria e o seu marido, depois vejo a câmara e – ó meu deus, o que é aquilo – um enorme foguete verde ao seu lado, vejo o Dragão e a Casa da Música, a Alfândega e o Palácio, num instante que tem de ser muito pequeno tento procurar a Rotunda da Boavista e encontrar a minha casa. Encontrei, encontrei! Estou extasiado e não faz mal nenhum, deixo de me preocupar com o que deixei para trás, o Porto recebeu-me com a cor dourada que esta cidade tão bem abraça pelas manhãs, uma pequena bruma a nascer do Douro, a marginal, casas, campos, olha o novo IKEA, sustenham a respiração, agitação, trem de aterragem no chão, estamos de volta a casa.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00146.png" /></p>
<p>Queria muito ter passeado pelo Porto no único dia que tinha para ver a cidade, mas a verdade é que não tive tempo. Depois de matar as saudades às Avós e às filhas, fui receber o meu primeiro presente. Peguei na bicicleta e parei algures no Campo Alegre para ficar envergonhado pela maneira como falo muito e pouco deixo falar. No entanto, soube deliciosamente bem, isso já ninguém me tira. Subi a Torrinha para rever aqueles três viciados agarrados aos seus chocolates. Uma troca de conversas contigo sobre a vida e contigo sobre a tua vida que eu às vezes queria ter a força para mudar, e lá vos deixei voltar para o chocolate. Resignado, subo mais um bocadinho para ter três agradáveis surpresas. Tu, tu e tu. Fizeram-me uma festa que me deixou com vontade de não vos largar mais. Sabem, é bom saber que deixamos marcas positivas nas pessoas. Sim, sabe muito bem saber que há quem se lembre de nós e quem realmente sinta a nossa falta. Vocês as três deram-me um bocadinho disso e só posso estar incrivelmente feliz com isso. Antes de adormecer, envolvido nuns lençóis que não me viam há três meses, fui ter contigo também. De manhã não estavas em casa, à noite acho que vi uma pontinha de olhos molhados. Vi? Olha não sei, mas sabe tão bem falar contigo e entender que nunca nos vamos conhecer a cem por cento mas vamo-nos sempre entender por um olhar só. Gosto mesmo de ti, sabes? E depois dizes-me coisas bonitas que me atraiçoam o peito. Gosto de ti. Gosto de vocês.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00144.png" /></p>
<p>No dia seguinte mandei-me para o Algarve. Afinal, o objectivo da viagem era mesmo esse. Lá por baixo, alem de me deixar encantar pela pequenez de quinze dias e pelo estranho sentido de responsabilidade para com algo que me é tão estranho, tive ainda tempo de comer bem e dar umas braçadas na praia. Não podia ter corrido melhor, pois claro. Mas, o que interessava era que ia finalmente conhecer o puto que me vai deixar ainda mais Peter Pan. Deixem-me explicar.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00143.png" /></p>
<p>És muito pequenino. És mesmo, mesmo uma pulguinha. Na imagem que guardo de ti cá dentro, estás vestido com uma roupinha verde, de olhos muito fechados num sacrifício de aguentar a confusão deste mundo onde te meteste, com as duas mãos muito agarradas aos meus dedos, alguns barulhinhos imperceptíveis para me mostrares que estás enternecido pelo sono que te é oferecido durante as vinte e quatro horas do dia, o cabelo é farto como o do teu irmão e humedecido pelo tempo que passas deitado, a barriguinha dá-te algum choro de vez em quando mas não faz mal miúdo, já passou, já passou. Agora dorme. Um dia vais ser grande e vais-me ensinar muitas coisas. Eu também te quero ensinar algumas, quero ver-te a crescer, achas que posso? Quero que te rias de mim quando entenderes que não sei jogar futebol, quero dar-te a ouvir o grito antigo do Jim e a guitarra do Bob e do Neil. Ah, e quero tirar-te o sotaque algarvio. Olha, esquece lá isto tudo, quero é que sejas o miúdo mais feliz do mundo, o que achas? Vai correr bem.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00142.png" /></p>
<p>Voltei um bocado chateado por entender que não o vou ver crescer todos os dias. Mas não tenho culpa disso. Ou tenho? À noite, depois de passar o fim de tarde arrumar as coisas, fui ter com vocês todos. Uma segunda conversa, interrompida por um aquecimento para o jantar sozinho com uma garrafa no banco de trás do carro, os abraços e sorrisos abertos à chegada, as histórias que pediam para ser contadas, a mesa de jantar e a corrida aos finos, os finos, o senhor que não trazia os finos e os finos outra vez, o eu não gosto de cerveja, a francesinha que ficou a meio, a boleia que o podia ser todos os dias até o sempre acabar, o até já a vocês que me vêm visitar daqui a uns dias e a vocês que tiveram de ir para o outro lado do rio mais cedo, a chegada ao palácio e a música cheia de racking, o gato pára-quedista e aquele abraço que se calhar só eu é que senti, as prendas que me deram e que me fazem sentir tão acarinhado, o até já que vais sozinha, eles têm coisas a tratar, as coisas tratadas, o até já musculado e o até já riquinho que custa tanto – olha, custa mesmo – o fim da noite no sofá das traseiras, um até já aos resistentes e uma boleia até casa contigo que te vou ver a Budapeste mal me chames.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00145.png" /></p>
<p>Horas depois, já no Aeroporto, a tentar entender as saudades que uma mãe pode ou não ter do filho, o segurança do Sá Carneiro perguntava-me onde estava a minha camisola da selecção. Atarantado, abraço-me ao homem que não conhecia de lado nenhum. Também ele se lembrava de mim três meses depois. Lembras-te de dizer que já não me lembrava de chorar? Olha, desci as escadas rolantes até ao terminal com as lágrimas palermas a caírem dos olhos, com umas saudades inexplicáveis do que tinha cá e do que deixei aí, sem entender como posso ser tão indiferente às coisas quando as tenho nas mãos. Foram só três meses, achava que era pouco, mas não tinha ainda entendido como cada um de vocês me faz falta, como aquele meu jeito de vos picar e chatear é o meu modo de dizer como gosto de ti, de ti e de ti que não gostas de cerveja. É o meu jeito de passar por vocês sem questionar que raio de impressão deixo para trás, porque vocês já sabem que eu penso sempre o pior e isso não é maneira nenhuma de sentir as coisas. Pois foi naquele terminal que entendi que sou uma pessoa que gosta de sentir a falta das coisas, que gosta deste sentimento, e que decididamente não as sabe aproveitar quando as tem. Já no ar, a olhar para as nuvens mais bonitas que alguma vez vi, a perder-me na imensidão de uns Alpes cobertos de neve ou num lago de Geneva fascinante, ainda pensava em vocês. E sorria. A vocês todos, obrigado pela noite que me deram. Eu sei que não sou muito bom a dizer como vos gosto quando tenho a oportunidade, mas olhem, gosto-vos. Vemo-nos além, aí ou ali mais ao lado, não interessa. Vemo-nos aqui. Fava, que escrito lamechas, este.</p>
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		<title>#28</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Nov 2007 09:26:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Berlin, 11 de Novembro 2007
São quatro e vinte da manhã. Em Nuremberga cai uma pequena morrinha que nos puxa para novamente para a cama. O alarme insiste nervosamente, obrigando os meus pés a tocar na alcatifa do meu quarto. Olho lá para fora e aprecio o escuro da noite. Da cozinha vem o som de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Berlin, 11 de Novembro 2007</p>
<p>São quatro e vinte da manhã. Em Nuremberga cai uma pequena morrinha que nos puxa para novamente para a cama. O alarme insiste nervosamente, obrigando os meus pés a tocar na alcatifa do meu quarto. Olho lá para fora e aprecio o escuro da noite. Da cozinha vem o som de gargalhadas de um dos meus vizinhos e dos seus amigos. Passam a noite entre cervejas, cigarros e muitas conversas. Gente porreira, penso enquanto quase entro por outro sonho dentro. Entendo que estou prestes a adormecer outra vez, agora sentado na borda do colchão, e levanto-me num salto que me leva directamente à cozinha para resmungar um bom dia que os faz erguer o cenho durante uns bons segundos. Banho tomado, saco pronto, vamos embora. Lá fora as pessoas aparecem todas ao mesmo tempo, com uma expressão ensonada na cara. A maioria à excepção dos condutores pouco dormiu. Os grupos dividem-se. O Dinesh fica com os Coreanos, o Jochen com os Espanhóis, o Matt com as Checas e o Irmão, e eu fico com o resto das meninas só para mim. As malas são atiradas para dentro da mala, os dedos das mãos tentam atabalhoadamente aprender a trabalhar com a menina do GPS, um CD pintado à mão vai parar dentro do auto-rádio. Pé na embraiagem, outro no acelerador, até amanhã Nuremberga.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00131.png" /></p>
<p>São quatrocentos quilómetros de Autobahn que, em boas condições, se fazia em pouco mais de duas horas. No entanto o tempo prega-nos uma partida e oferece-nos durante os primeiros cento e cinquenta quilómetros uma tempestade de neve. Sim, o Português estava a conduzir um Mercedes na Neve. Os Broken Social Scene cantam-me que eu costumava ser um dos que estavam muito mal mas que eles gostavam de mim. Agora estou longe e não vou voltar. Ao mesmo tempo, milhares de flocos de neve têm o seu fim no meu pára-brisas, uma estrada de três faixas onde o alcatrão só em visto em parte de uma delas é iluminada por dois grandes faróis com direcção a sonhos mais altos. Os que não dormem vão conversando, à frente o carro do Dinesh prega-lhe uma partida de vinte segundos enquanto a traseira lhe foge para um lado e para o outro para um lado e para o outro. Assustador, mas felizmente nada acontecer. Aprendida a lição, começa a andar mais devagar no nevão. Quando a neve levanta temos a estrada só para mim. Sou só eu, a estrada e o acelerador. A experiência da Autobahn quatro meses depois de pegar num carro pela última vez foi qualquer coisa de especial.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00132.png" /></p>
<p>À chegada a Berlim todos se empurram para terem uma vista melhor. Fizemos uma entrada por uma antiga zona a sul, na parte leste da cidade, a parte que era comunista. Berlim entra nos nossos olhos como uma cidade de chocolate que precisamos de consumir rapidamente. Dois dias não iam chegar para ver tanta coisa que imediatamente criava entre nós e a cidade uma ligação especial. A auto-estrada dá lugar a uma grande avenida ladeada por enormes árvores, que dá lugar a uma zona habitacional tipicamente comunista, com grandes passeios e prédios extremamente feios. Pela estrada passeiam Berlinenses, que não se podem confundir com Alemães, de rosto feliz, que se dirigem para as suas bicicletas para um passeio de Sábado ou para os seus carros, na maior parte dos casos os mesmos dos anos 80. Convém aqui dar uma pequena explicação sobre o que é Berlim no meio deste país Alemão.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00133.png" /></p>
<p>Terminada a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro partes. Para salvaguardar a individualidade da enorme capital, a cidade de Berlim foi pelo mesmo caminho. Assim, em pleno centro da divisão territorial que calhou à União Soviética surgia outra divisão, com quatro partes de Berlim a serem divididas entre Soviéticos, Ingleses, Americanos e Franceses. Para impulsionar o crescimento da cidade, cedo os três países ocidentais uniram as suas forças para trazer Berlim de volta ao seu rubor pré guerra. Era uma cidade que já tinha dado origens a duas guerras mundiais. Pois a somar a isto, foi o palco do início e fim da Guerra Fria.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00134.png" /></p>
<p>Em 1961, com a desculpa de manter a democracia intacta mas com o verdadeiro intuito de parar a onda de emigração para a Alemanha Ocidental, os Soviéticos criam uma barreira de cento e cinquenta e sete quilómetros, criada por dois muros separados por campos minados, fossos, arame farpado e redes electrificadas, vigiado minuciosamente por guardas da URSS. Durante vinte oito anos, famílias foram mantidas separadas, dezenas de cidadãos de leste perderam a sua vida enquanto tentavam escapar, contando-se pelos dedos as histórias de pessoas que conseguiram ludibriar os guardas do muro.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00135.png" /></p>
<p>O resultado final do muro são duas cidades diferentes, que ainda hoje continuam a tentar encontrar-se. Com a queda do muro, a invasão capitalista ocorreu com velocidade na parte de leste, mas os seus habitantes não fugiram para a zona ocidental. Afinal, o que eles desejavam não era emigrar para o outro lado do muro mas sim ver o que era, entender o que por lá se passava. Hoje são visíveis por toda a zona a este da cidade as marcas deixadas pelo período comunista, enquanto a zona oriental é marcada por uma arquitectura extremamente ligada aos anos setenta e oitenta. No panorama do país, Berlim é uma das zonas mais pobres da Alemanha, onde é difícil arranjar emprego o que origina a uma baixa geral dos preços. Um bom contraste, depois de quatro meses a viver na Baviera, a parte que leva a economia do país às costas. Esta foi a Berlim que nos foi apresentada.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00136.png" /></p>
<p>Durante a nossa estadia nevou imenso. Pela manhã e pelo fim da tarde a cidade cobria-se de branco, enquanto durante o dia o frio era uma constante. Nada que nos intimidasse a descobrir a capital Alemã. Da Pariser Platz, onde o Michal Jackson fez aquela proeza memorável com a sua criança até à Ilha dos Museus, passeamos por entre o famoso Brandenburg Gate, o clamoroso Memorial Judeu, a surreal zona onde estavam instalados os Bunkers de Hitler, um pouco do Muro de Berlim e o antigo quartel-general das SS. O Checkpoint Charlie e toda a sua história sobre as tentativas de fuga de oriente para ocidente, a Gandarmenplatz e a Babelplatz com a Universidade como pano de fundo, onde pessoas como Marx, Engel, Nietzsche ou Einstein estudaram e leccionaram. A imponente TV Tower, o segundo edifício mais alto da Europa a seguir à TV Tower de Moscovo, com o seu restaurante giratório, ou o fantástico panorama que o Reichtag nos oferece do topo da sua enorme cúpula de vidro.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00137.png" /></p>
<p>À noite, com um frio de fazer bater o dente, as meninas queriam beber e eu queria conhecer a cidade. Em vez de me mandar sozinho pelas ruas da cidade, perguntei-lhes o que achavam da ideia de transformarmos a nossa Mercedes num Barmobil, uma espécie de Papamobil mas com a santidade do álcool a fazer as vezes do outro senhor. Destino aleatório no GPS e lá ia eu desbravar a cidade de Mercedes, enquanto no banco de trás elas se divertiam com a dificuldade de enfiar vinte centilitros de vinho num copo enquanto o carro se movimenta. Dentro do carro tínhamos formado o nosso próprio clube Berlinense, com direito a bebida, comida, o por vezes irritante fumo de cigarros, os risos descontrolados típicos de uma noite perfeita, muita música e dança que começavam sempre pelo condutor e os olhares que se acabavam sempre por perder pela magnificência de uma cidade que se de dia é monumental, à noite se liberta num mar de luzes que a mim tanto me relaxam o espírito. Se viram o Lost in Translation, e em especial aquela cena dentro do táxi na chegada a Tóquio, podem imaginar o nosso estado de espírito se lhe juntarem uma festa demente dentro das quatro portas.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00138.png" /></p>
<p>Passou depressa, muito depressa. E ao chegar a casa, depois de devolver o carro na Europcar, sentia-me como se tivesse sido abanado por um mar de gente. Não queria estar aqui, queria voltar para o meio daquela confusão de ruas, luz e neve, queria voltar para dentro do carro e guiar mais um bocadinho que fosse, queria que esta gente toda se deixasse ficar por aqui e não fosse dormir. Foram só dois dias na capital Alemã, mas foram dois dias que mexeram comigo num jeito muito estranho. Deitado na cama, tento entender aquilo que fiz e dar-lhe algum sentido, explicar a conversa com a miúda da recepção ou o casal de namorados na pizzaria. Tentar entender aqueles flocos enormes de neve que me pintaram o casaco de branco e explicar porque é que mesmo ainda aqui estando, já sei que daqui a uns meses vou estar cheio de saudades destes sacanas todos que tenho aqui como amigos.</p>
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		<pubDate>Fri, 09 Nov 2007 13:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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Escrevi uma vez que apesar de gostar do Porto de uma maneira muito minha e extremamente bonita, nunca me senti bem a andar pelas ruas da cidade. Sentia-me parte da vida de todas aquelas mulheres baixinhas e vestidas de forma espampanante, de todos os homens com barriga de Super Bock [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 9 de Novembro de 2007</p>
<p>Escrevi uma vez que apesar de gostar do Porto de uma maneira muito minha e extremamente bonita, nunca me senti bem a andar pelas ruas da cidade. Sentia-me parte da vida de todas aquelas mulheres baixinhas e vestidas de forma espampanante, de todos os homens com barriga de Super Bock que passeavam os seus egos pelos cafés da cidade, de cigarro no canto da boca e jornal distraído na mesa, sentia-me parte de todos aqueles miúdos que atiravam papeis húmidos pelos cilindros das canetas às mulheres baixinhas e sentia-me parte de todas as miúdas portuguesas alvo dos sons de apreço dos homens com ego, estômago e estímulo sexual avultados. Sempre que ia para o ginásio, lá no cimo da Constituição, sentia aquele barulho vindo do infantário e da escola primária muito meu, via as pessoas de olhar nervoso na paragem como muito minhas, atravessava as passadeiras nos perigosos vermelhos de uma forma que era minha, dizia olá às pessoas do ginásio e perdia-me em conversa com a Paulinha na recepção, a Sandra junto às máquinas, o António onde quer que ele estivesse a fazer o seu trabalho de manter o clube num brinco. E todas estas conversas, todos os sorrisos, as palavras trocadas e as frases sem sentido que muitas vezes me saem da boca quando não sem mesmo o que dizer eram todas coisas que saíam daqui de dentro como muito minhas. A Constituição é minha, o Marquês e a Boavista são meus, todas aquelas ruas, as avenidas e os quelhos que vão dar à baixa são indiscutivelmente meus. O homem que diariamente me pedia um euro para a sopa, a mulher desdentada que me mandava uns beijos apelativos, a senhora que achava que eu todos os dias precisava de um novo par de meias, o simpático empregado do café di Roma que insistia em me trazer o meu chocolate quente preferido. Até vocês, que eu pouco via, eram muito meus. Até tu, e tu e tu e tu, que me deixas-te de falar, ou com quem eu deixei de falar, não sei bem, és muito minha e muito meu, e muito minha e muito meu. O fumo a sair de uns autocarros, o vapor de água que saía de uns poucos, o barulho ensurdecedor do motor de todos eles, o som que em conjunto com aquele bater das ondas e da nortada nas pedras do castelo do queijo, do molhe ou em gondarém. Todos eram muito meus. O rio e aquela cor alaranjada que a ribeira lhe oferecia à noite, os simpáticos seres que nos queriam dar muita droga, os pouco simpáticos seres que nos atiravam com batatas, água e sabe lá Deus o que mais. Todos eram muito meus. O cinema e as pipocas no Arrábida, os jogos de futebol aos sábados de manhã, as corridas no parque da cidade e as tardes e tardes passadas em casa a fazer que trabalhava. Raios, como eram muito minhas. A cidade era mesmo muito minha. Escrevi uma vez que apesar de gostar do Porto de uma maneira muito minha e extremamente bonita, nunca me senti bem a andar pelas ruas da cidade. Deixem-me então mostrar-vos um pouquinho mais o que é isto de ser ERASMUS em Nuremberga.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00130.png" /></p>
<p>Ontem tinha muito que fazer. Tinha mesmo muito que fazer. Mas estava nervoso de mais, não conseguia estar quieto e ficar sentado ao computador estava-me a destruir as pequenas ligações, uma por uma. Então peguei na minha música e na minha máquina e fui lá para fora. O Martin Luther King começou a discursar. Depois veio a guitarra do Paulo Furtado a que logo se juntaram as vozes da Selma e da Raquel (quem diria, que um dia…). Soul city, here we go! A música apanhou-me de surpresa, já há uns tempos que não andava com a febre de Wraygunn. Primeiro saltei para dentro de um autocarro. Depois troquei por um eléctrico. Terminadas as pequenas viagens, feliz por não ter sido multado à laia de não ter bilhete, comecei a andar pelos 5 kilometros de avenidas que dão a volta às muralhas da cidade. Perdão. Não andei. Algumas pessoas olhavam para mim, até os filhos de uma grandessíssima prostibulária que conduziam os seus porsches gt3 (sim, aqui há disso) ficavam a olhar para mim. Depois lá entendi. Não andava. Dançava. Não é normal ver alguém a dançar pela rua, a soltar as mãos e a dar larga aos saltos entre os dois pés, a cantar feito desalmado e a sorrir para as meninas bonitas que passam do alto das suas bicicletas encantadas. Pois olhem, eu ontem dancei muito, e ainda eram apenas três da tarde. É a mais pura das verdades. Eu posso gostar muito do Porto, mas nunca me sentirei tão livre ao ponto de dançar como um louco que sou pelas ruas da cidade. Aqui não interessa, quem são eles se não pinturas no quadro mais bonito onde alguma vez vivi? Entretanto fez-se tarde, o que é o mesmo que dizer que passaram as quatro da tarde. O sol pôs-se, as iluminações de Natal acenderam-se, eu sentei-me ao frio a ler, enquanto o suportei. Depois enfiei-me no meu sofá, enrolado em mim e aquecido pela grande chávena de café e pelo chocolatinho que o simpático empregado continuamente me insiste em dar. Dentro do Starbucks, já não havia Wraygunn mas a Nina Simone fazia-me sentir ainda mais em casa com a sua sensualidade de me levar aos píncaros. De chávena quente na mão, olhei absorto por entre os flocos de neve pintados nas vitrinas o espírito quente de toda aquela gente a largar os seus empregos, a comprar três pequenas salsichas dentro de um pão, vinho quente, café, cappuccinos, gingerbread ou o que mais for, a encontrar os seus amigos, a abraçarem-se e a contarem as peripécias do dia. Aqui não tenho ninguém a quem contar as minhas peripécias. Alias, não tenho em lado nenhum a não ser neste espaço, não gosto assim tanto de estar com pessoas, verdade seja dita gosto de ser um bichinho do mato com o meu espaço para observar. Mas esta sensação de liberdade que sinto para qualquer lado que vou faz-me não pensar muito no como era estar aí desse lado e questionar-me se quando voltar será ou não diferente. Aqui posso saltar, posso sorrir a toda gente e esperar sorrisos e ares aparvalhados como resposta. Não faz mal, sou livre, mesmo muito livre. E tu?! Já gritaste alguma coisa hoje?</p>
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		<pubDate>Sun, 04 Nov 2007 22:50:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[ERASMUS]]></category>

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		<description><![CDATA[Nürnberg, 4 de Novembro de 2007
Olha, não sei o que escrever. Pronto, está dito. Dou voltas e voltas e não sei o que te escrever. Quero adoptar um tom confiante, emocional, paternalista, pateta, brincalhão, comedido, alegre, excitado. Os meus dedos escrevem palavras soltas no ar, por cima do teclado, estão irrequietos, não os consigo parar. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nürnberg, 4 de Novembro de 2007</p>
<p>Olha, não sei o que escrever. Pronto, está dito. Dou voltas e voltas e não sei o que te escrever. Quero adoptar um tom confiante, emocional, paternalista, pateta, brincalhão, comedido, alegre, excitado. Os meus dedos escrevem palavras soltas no ar, por cima do teclado, estão irrequietos, não os consigo parar. Penso nos quase três mil quilómetros que me separam do sul de Portugal e penso como há coisas maravilhosamente injustas. Vejo-te aqui à minha frente, estás a dormir. Uns lábios perfeitos, um nariz muito pequenino, dois olhos fechados que me sussurram um «não me toques». E eu não te toco, porque estás longe e eu não te posso tocar. És o melhor do mundo, sabes disso não sabes? Não deixes que te digam o contrário. És o melhor do mundo.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00129.png" /></p>
<p>O meu irmão chama-se Gonçalo. É a pulguinha mais adorável que existe neste planeta, e é muito meu. Não fiz nada para o ter e, no entanto, é a coisa de que mais me orgulho nesta vida. Hoje sinto-me vaidoso. Muito vaidoso. Também estou orgulhoso deles, que me devem achar apatetado sempre que me lêem por aqui, a dizer estas coisas muito não-minhas. Mas não faz mal, tenho orgulho em vocês, muito, entendem? Agora, façam-me um favor, e tratem bem dessa coisa perfeitinha que têm aí nos vossos braços. Prometo que vou ser um bom irmão mais velho. Bem-vindo, miúdo.</p>
<p><span style="font-style: italic">Bim bom bim bim bão bum bim bom bim bum bão, quem bate à porta do meu coração? Bim bom bim bim bão bum bim bom bim bum bão, quem pôs um doce na minha canção? Vejo uma frota de barcos de açúcar, será que o mundo vai ser salvo assim? Ó meu menino, ó meu capitão, o tempo é louco, o céu é oco, mas vale tanto quanto o teu espanto, sou o teu espelho cantor, ho-o-o, ha-a-a, hi-i-i, … Ó meu menino, meu capitão, quando cresceres, se ficares tonto, dou-te um desconto, és cá dos meus. Estou bem em crer que o nosso amor vai ser bom, já é bom, vai ser bom, já é bom, vai ser bom, já é bom. </span></p>
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		<pubDate>Thu, 01 Nov 2007 10:50:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pedro</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Salzburgo, 1 de Novembro de 2007
A noite das bruxas ainda ia a meio quando acordei. Enquanto tomava o pequeno-almoço e deixava o ar gelado da madrugada entrar pelo meu apartamento dentro através da janela aberta, três vizinhos munidos de aterradoras serras eléctricas e muito álcool no sangue atiravam o meu nome para dentro do quarto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Salzburgo, 1 de Novembro de 2007</p>
<p>A noite das bruxas ainda ia a meio quando acordei. Enquanto tomava o pequeno-almoço e deixava o ar gelado da madrugada entrar pelo meu apartamento dentro através da janela aberta, três vizinhos munidos de aterradoras serras eléctricas e muito álcool no sangue atiravam o meu nome para dentro do quarto, pedindo para lhes tocar algo na guitarra que os preparasse para uma reconfortante noite de sono. Depois de em vão lhes tentar explicar que não havia nenhuma festa em minha casa, que estava acordado mas que ia sair dentro de minutos em direcção a Salzburgo, deixei-os nos seus delírios de Jack o Simpático Estripador e fui preparar algumas sandes, enfiei tudo no saco e esperei que a Nadya aparecesse com o seu olhar ensonado de menina ansiosa por conhecer o que aquela cidade nos ia reservar. Que dia bom, foi este.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00123.png" /></p>
<p>Estar na Estação de Nuremberga por volta das cinco da manhã trouxe-me óbvias recordações dos fins-de-semana no Oktoberfest, das correrias loucas para não perder o comboio, dos passageiros ensonados que tentavam adormecer por entre as nossas conversas animadas tanto pela adrenalina como pela cerveja. No entanto, as semelhanças ficam-se mesmo pelo número do comboio. A viagem até Salzburgo iria durar quatro horas e meia, com quarenta minutos de espera entre ligações em Munique. Refastelados no comboio, iniciamos uma conversa deliciosa que iria durar um dia inteiro. Sou uma pessoa que preza tanto o silêncio como uma boa conversa. Não me chateio se estiver sozinho, mas tão pouco me irritam pessoas que, como eu, falam pelos cotovelos. Há sempre um charme especial em ambos os casos. Bom, só pelas conversas, o dia já teria valido a pena. Mas houve muito mais.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00124.png" /></p>
<p>Chegar a Munique às seis e meia de uma manhã de Outono significa encontrar uma cidade adormecida, confortavelmente envolvida pelos cobertores de um forte nevoeiro que esconde o céu bem azul que nos iria acompanhar pelo resto do dia. Copo de cartão com algum café na mão, plataforma de partida apontada, quarenta minutos para conhecer um pouquinho mais da cidade. Rumamos na direcção contrária ao centro, a um canto, três punks dormem envolvidos pelas latas vazias, os seus cães olham-nos desconfiados, cheiram a nossa vontade de aproveitar o dia ao máximo, sorriem-nos do fundo da sua alma de cão pachorrento. Quanto mais andamos mais a cidade fica deserta, mais o nevoeiro se adensa, encobrindo as modernas construções, as linhas do eléctrico, a bela catedral e as pequenas casas que sobreviveram à guerra e que emprestam o seu charme a uma enorme zona residencial nos arredores da estação. Os quarenta minutos passam a voar, rapidamente apanhamos o comboio para Salzburgo. Áustria, aqui vamos nós.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00125.png" /></p>
<p>Salzburgo recebeu-nos de braços abertos. Já habituados ao frio, passeamos vagarosamente pelos cantinhos escondidos da cidade, maravilhamo-nos com os enormes jardins do Museu do Barroco, perdemo-nos pelas pequenas ruas comerciais, onde apenas as casas de chocolates se encontravam abertas, pasmamos com os fantásticos letreiros das lojas, tipicamente adornados por detalhes verdes e dourados como só os lojistas desta região da Europa sabem ter. Vamo-nos meter por estas pequenas arcadas, entrar naquela igreja, experimentar este chocolate, e aquele também, comprar dois bretzels estranhamente confeccionados com vegetais, deliciosamente confeccionados com vegetais, experimenta este chapéu, repara como aqui está escrito Austrália em russo e não Áustria, risos, covinhas no canto dos sorrisos, espanto pela enorme fortaleza que vigia toda a cidade, encanto pela vista que dela temos, passinhos de criança sobre as milhares de folhas caídas sobre todos os passeios da enorme reserva florestal. Vinho quente, um cão que repete o hábito de rebolar na relva e sacudir o que fica no pêlo para cima das donas, um pequeno desvio inusitado e o deleite perfeito com a vista para uma montanha que se ergue do nada em direcção aos seus dois mil e quinhentos metros de altura.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00126.png" /></p>
<p>Oito horas depois estamos exaustos. A conversa continua, saltando de viagens por uma Europa encantada para Filmes sobre pessoas encantadas pela Europa, de hábitos de cada um para as dificuldades sentidas em dizer “Cão” ou “Hör Auf!”, das enormes saudades de casa para as memórias de um casamento em Moscovo e um divórcio em Londres. O sol põe-se atrás das montanhas, o chá aquece-nos as mãos, o comboio vai partir dentro em breve. Fica a recordação de um dia delicioso, de uma companhia inesperada e de uma cidade que encantou todos os que a visitaram hoje.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00127.png" /></p>
<p>No comboio, todos os passageiros têm as suas máquinas nas mãos, deliciados com a arquitectura requintada da cidade em contraste com o intenso amarelo e vermelho das folhas que subsistem nas árvores austríacas e que lhe conferem um ambiente único. Eu, encostado ao frio vidro do comboio regional, esboço a memória cliché da minha cidade. Porque é para mim uma verdade inegável.</p>
<p><img src="http://www.junifeup.pt/%7Ejppinto/blog/my-images/algomeu-00128.png" /></p>
<p>Quanto mais viajo, mais valor dou ao meu Porto. À sua cascata de casas que rebolam pela Sé em direcção às moedas encantadas no fundo do Douro, à ingenuidade das suas pessoas, à sujidade e ao frio granito. Fecho os olhos e sorrio. Vejo-te dia quinze, se me deixares.</p>
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