#42
Porto, 26 de Março de 2008
São as pequenas incursões por uma cidade ainda adormecida que fazem o Porto entranhar-se dentro de mim. O paralelo encharcado pela noite espera pacientemente por uma distracção que me empurre para o chão, os gatos vadios retornam à sua casa nos jardins municipais abandonados, homens engravatados e ar ensonado apressam-se a pôr a gabardine nos bancos de trás do carro e a seguirem viagem para o seu trabalho já com um ar entediado decididamente entranhado nas suas feições.

Fecho as portas do Velhinho, peço ao Billie Joe Armstrong que me acorde um pouco mais, desço os vidros o mais que posso para que seja o frio e não a chuva a levarem de mim o que resta de sono, começo o dia a tentar evitar que algum carro desgovernado acerte em mim para me calar a sinfonia do acordar. Não que me importasse, penso entre dois sorrisos às nuvens que assustam antes de seguir caminho para a Faculdade. Percorro a rua das árvores púrpura sem prestar atenção aos faróis encharcados que por mim passam e penso que desde que voltei no dia oito de Fevereiro ainda não escrevi nada por estes lados.

Já lá vão sete semanas e ainda assim tenho presente a tarde do regresso como nada mais. A vontade de saltar fora do avião, de me estender de joelhos e pedir ao piloto para dar meia volta ao grande pássaro, a raiva que sentia enquanto um imigrante fala-barato se debatia entre três cervejas espanholas e a sua adoração cega pela nação que é a sua cidade, a desorientação sufocante de não saber onde colocar os pés na chegada ao aeroporto, a retina em stress que não quer olhar para ninguém, a força que se faz para se fechar os olhos e esperar sem sucesso que ao abrir sejamos transportados de volta para a casa que nos albergou durante seis meses.

Passei aquela tarde sozinho no quarto, de porta trancada e olhar prisioneiro do tecto mais branco que alguma vez vi, sem conseguir largar uma palavra por entre as muitas que dentro da cabeça ainda escorreriam em inglês de improviso. Veio o trabalho, o acordar com as galinhas que nada me chateia, os almoços entre gargalhadas recheadas com parvoíce e muito sal, as saídas à noite plantadas pelos sorrisos e devaneios das minhas crianças alucinadas. Vieram os passeios pela minha cidade, os sorrisos e turras do miúdo que vai ser rei, os serões de cinema – o cinema, que saudades que eu tinha do cinema! – e o regresso a casa exausto pelos atropelos de dias que deveriam ter o dobro do tamanho se algum dia o sol e a terra nos levassem a sério.
March 26th, 2008 at 2:44 am
Se fosse assim tao mau regressar ao Porto, eu não andava a contar os dias para dia 4 de Abril…
Tens sorte em estar ai!!!
March 26th, 2008 at 9:41 am
Guess it’s back to Google translator for me. Miss you :) x
March 27th, 2008 at 5:38 am
ora, o Porto não é assim tão mau…
vivemos um dia de trabalho para as horas do almoço, para o final do dia acompanhado por um jantar mais requintado ou apenas uma sande qualquer, uma ida religiosa ao cinema ás 2as feiras…ou então passar uma tarde (que para nós foi o final do dia…) a beber finos no Piolho. ahhhh…! e ainda dizes tu que queres voltar à cidade que te albergou durante 6 meses…compreendo :) mas pensa…daqui a uns meses estarás fora daqui outra vez…e sentirás tu a falta de tudo isto que vivemos no dia a dia?! :)
March 27th, 2008 at 10:33 am
Tótó…viste bem na minha cara o quanto me custa não estar aí com as minhas crianças alucinadas…=)
Então, queres vir kmg ao Egipto?
saudades de voces todos*
April 7th, 2008 at 11:44 am
Hey, aquela ali é a Bern? :o
Como é que foi a cena? ;)
Beijinhos, espero que estejas bem, puto :) **
April 9th, 2008 at 11:03 am
@Lígia: É sim senhora, foi um dia meio alucinante mas genial. Nunca vi ninguém beber tanto durante tantas horas seguídas. Nem nos festivais!
@Lua: Eu contigo vou onde tu quiseres Kiwi, já sabes disso. O Egipto é só uma desculpa.
@Nadya: You better learn Portuguese, you would appreciate it one day ;-)