March, 2008

#43

Porto, 29 de Março de 2008

Música. Encerras nos punhos a loucura que tens acumulada e deixas que tudo desapareça através do que te entra pelos ouvidos atentos. Entras no ritmo, a batida é o teu pulsar e ela transmite-te a cadência do que vives. As pálpebras que nunca se tocam, os dedos que levitam no ar ao sabor da tua dança efémera. As pálpebras que nunca se tocam para que com os olhos despertos consigas ver presente as mais doces recordações. As duas mãos que te envolviam a cara com ternura, o volante que prolongava o corpo naquela viagem alucinante, o teu choro irrepreensível de quem vê a parede de vidro quebrar em cinco instantes. A música dá vida ao que viveste, ao que já não sabes ser, dá-te coragem para te conheceres numa dança à volta do teu próprio tempo.

Há um banjo e uma voz de criança. Há dois violinos amantes e um violoncelo ciumento. Há o banjo outra vez, batidas nos tambores perfumados e há o refrão. Agarras o volante com mais força, sentes a face a escaldar e as lágrimas que nela assentam a ferver, cantas para que ninguém te ouça. Vais e vens com um propósito, sonhas no que sabes ser impossível, pedes para que aconteça aquilo que te assusta e de que queres fugir, foges quando sabes que é possível, o banjo volta, os cantos da criança ainda não acabaram, aceleras por entre as montanhas e pedes para que tudo fique esquecido. Mas a música volta e nada é esquecido. As memórias não se esquecem, guardam-se. As chaves perdem-se, mas a música tem os seus truques bem marcados.

Deixem-me que lhe chame Sofia. A Sofia gravou-me dezasseis músicas num disco colorido a lápis de cera, guardou-o numa capa com algumas colagens, pinturas e rabiscos, selou-o com a palheta de uma guitarra presa por um pequeno fio e entregou-me tudo com um sorriso apressado no dia em que decidi partir. Quatro meses depois, sozinho em vésperas de Natal numa Nuremberga deserta, decidi esquecer a razão e fazer-me à estrada em direcção ao Canteiro. Em pouco mais de um dia estava de volta a Portugal, em pouco mais de um dia a banda sonora da Sofia tinha-se transformado no meu mais precioso baú.

A noite ainda não se foi deitar, a estrada está gelada e o volante às vezes perde os sentidos. O carro luta contra a neve e o vento para não ser atirado berma fora, os campos brancos chamam por ele, o céu também. Dentro do carro, tu contas a história de um rapaz esquecido no tempo, lá fora, esse mesmo tempo parou, estanque num daqueles globos que ela uma vez me pediu. Desculpa por nunca to ter trazido. Desculpa-me por não ter ido jantar a casa, eu não sabia.

Companheiros de aventura nos seus navios mercantes do asfalto, o tracejado da rota torna-se numa linha inquebrável, a neve Alemã e aquela estrada adorável sem fim na provença Francesa, o deserto Espanhol e as eléctricas serras Alpinas. O fogo-de-artifício que não existiu, a cidade abandonada por entre um encantador nevoeiro de bombas carnavalescas a explodir em caixotes decrépitos nas estranhas ruas caiadas com desenhos a lilás, o acelerador, o volante e o banjo, o teu beijo, o meu banjo outra vez. O amor não te vai nunca deixar em paz, criança. Cantas, o que é que isso te diz?

Pedro, March 29th, 2008

#42

Porto, 26 de Março de 2008

São as pequenas incursões por uma cidade ainda adormecida que fazem o Porto entranhar-se dentro de mim. O paralelo encharcado pela noite espera pacientemente por uma distracção que me empurre para o chão, os gatos vadios retornam à sua casa nos jardins municipais abandonados, homens engravatados e ar ensonado apressam-se a pôr a gabardine nos bancos de trás do carro e a seguirem viagem para o seu trabalho já com um ar entediado decididamente entranhado nas suas feições.

Fecho as portas do Velhinho, peço ao Billie Joe Armstrong que me acorde um pouco mais, desço os vidros o mais que posso para que seja o frio e não a chuva a levarem de mim o que resta de sono, começo o dia a tentar evitar que algum carro desgovernado acerte em mim para me calar a sinfonia do acordar. Não que me importasse, penso entre dois sorrisos às nuvens que assustam antes de seguir caminho para a Faculdade. Percorro a rua das árvores púrpura sem prestar atenção aos faróis encharcados que por mim passam e penso que desde que voltei no dia oito de Fevereiro ainda não escrevi nada por estes lados.

Já lá vão sete semanas e ainda assim tenho presente a tarde do regresso como nada mais. A vontade de saltar fora do avião, de me estender de joelhos e pedir ao piloto para dar meia volta ao grande pássaro, a raiva que sentia enquanto um imigrante fala-barato se debatia entre três cervejas espanholas e a sua adoração cega pela nação que é a sua cidade, a desorientação sufocante de não saber onde colocar os pés na chegada ao aeroporto, a retina em stress que não quer olhar para ninguém, a força que se faz para se fechar os olhos e esperar sem sucesso que ao abrir sejamos transportados de volta para a casa que nos albergou durante seis meses.

Passei aquela tarde sozinho no quarto, de porta trancada e olhar prisioneiro do tecto mais branco que alguma vez vi, sem conseguir largar uma palavra por entre as muitas que dentro da cabeça ainda escorreriam em inglês de improviso. Veio o trabalho, o acordar com as galinhas que nada me chateia, os almoços entre gargalhadas recheadas com parvoíce e muito sal, as saídas à noite plantadas pelos sorrisos e devaneios das minhas crianças alucinadas. Vieram os passeios pela minha cidade, os sorrisos e turras do miúdo que vai ser rei, os serões de cinema – o cinema, que saudades que eu tinha do cinema! – e o regresso a casa exausto pelos atropelos de dias que deveriam ter o dobro do tamanho se algum dia o sol e a terra nos levassem a sério.

Pedro, March 26th, 2008