November, 2007

#26

Nürnberg, 4 de Novembro de 2007

Olha, não sei o que escrever. Pronto, está dito. Dou voltas e voltas e não sei o que te escrever. Quero adoptar um tom confiante, emocional, paternalista, pateta, brincalhão, comedido, alegre, excitado. Os meus dedos escrevem palavras soltas no ar, por cima do teclado, estão irrequietos, não os consigo parar. Penso nos quase três mil quilómetros que me separam do sul de Portugal e penso como há coisas maravilhosamente injustas. Vejo-te aqui à minha frente, estás a dormir. Uns lábios perfeitos, um nariz muito pequenino, dois olhos fechados que me sussurram um «não me toques». E eu não te toco, porque estás longe e eu não te posso tocar. És o melhor do mundo, sabes disso não sabes? Não deixes que te digam o contrário. És o melhor do mundo.

O meu irmão chama-se Gonçalo. É a pulguinha mais adorável que existe neste planeta, e é muito meu. Não fiz nada para o ter e, no entanto, é a coisa de que mais me orgulho nesta vida. Hoje sinto-me vaidoso. Muito vaidoso. Também estou orgulhoso deles, que me devem achar apatetado sempre que me lêem por aqui, a dizer estas coisas muito não-minhas. Mas não faz mal, tenho orgulho em vocês, muito, entendem? Agora, façam-me um favor, e tratem bem dessa coisa perfeitinha que têm aí nos vossos braços. Prometo que vou ser um bom irmão mais velho. Bem-vindo, miúdo.

Bim bom bim bim bão bum bim bom bim bum bão, quem bate à porta do meu coração? Bim bom bim bim bão bum bim bom bim bum bão, quem pôs um doce na minha canção? Vejo uma frota de barcos de açúcar, será que o mundo vai ser salvo assim? Ó meu menino, ó meu capitão, o tempo é louco, o céu é oco, mas vale tanto quanto o teu espanto, sou o teu espelho cantor, ho-o-o, ha-a-a, hi-i-i, … Ó meu menino, meu capitão, quando cresceres, se ficares tonto, dou-te um desconto, és cá dos meus. Estou bem em crer que o nosso amor vai ser bom, já é bom, vai ser bom, já é bom, vai ser bom, já é bom.

Pedro, November 4th, 2007

#25

Salzburgo, 1 de Novembro de 2007

A noite das bruxas ainda ia a meio quando acordei. Enquanto tomava o pequeno-almoço e deixava o ar gelado da madrugada entrar pelo meu apartamento dentro através da janela aberta, três vizinhos munidos de aterradoras serras eléctricas e muito álcool no sangue atiravam o meu nome para dentro do quarto, pedindo para lhes tocar algo na guitarra que os preparasse para uma reconfortante noite de sono. Depois de em vão lhes tentar explicar que não havia nenhuma festa em minha casa, que estava acordado mas que ia sair dentro de minutos em direcção a Salzburgo, deixei-os nos seus delírios de Jack o Simpático Estripador e fui preparar algumas sandes, enfiei tudo no saco e esperei que a Nadya aparecesse com o seu olhar ensonado de menina ansiosa por conhecer o que aquela cidade nos ia reservar. Que dia bom, foi este.

Estar na Estação de Nuremberga por volta das cinco da manhã trouxe-me óbvias recordações dos fins-de-semana no Oktoberfest, das correrias loucas para não perder o comboio, dos passageiros ensonados que tentavam adormecer por entre as nossas conversas animadas tanto pela adrenalina como pela cerveja. No entanto, as semelhanças ficam-se mesmo pelo número do comboio. A viagem até Salzburgo iria durar quatro horas e meia, com quarenta minutos de espera entre ligações em Munique. Refastelados no comboio, iniciamos uma conversa deliciosa que iria durar um dia inteiro. Sou uma pessoa que preza tanto o silêncio como uma boa conversa. Não me chateio se estiver sozinho, mas tão pouco me irritam pessoas que, como eu, falam pelos cotovelos. Há sempre um charme especial em ambos os casos. Bom, só pelas conversas, o dia já teria valido a pena. Mas houve muito mais.

Chegar a Munique às seis e meia de uma manhã de Outono significa encontrar uma cidade adormecida, confortavelmente envolvida pelos cobertores de um forte nevoeiro que esconde o céu bem azul que nos iria acompanhar pelo resto do dia. Copo de cartão com algum café na mão, plataforma de partida apontada, quarenta minutos para conhecer um pouquinho mais da cidade. Rumamos na direcção contrária ao centro, a um canto, três punks dormem envolvidos pelas latas vazias, os seus cães olham-nos desconfiados, cheiram a nossa vontade de aproveitar o dia ao máximo, sorriem-nos do fundo da sua alma de cão pachorrento. Quanto mais andamos mais a cidade fica deserta, mais o nevoeiro se adensa, encobrindo as modernas construções, as linhas do eléctrico, a bela catedral e as pequenas casas que sobreviveram à guerra e que emprestam o seu charme a uma enorme zona residencial nos arredores da estação. Os quarenta minutos passam a voar, rapidamente apanhamos o comboio para Salzburgo. Áustria, aqui vamos nós.

Salzburgo recebeu-nos de braços abertos. Já habituados ao frio, passeamos vagarosamente pelos cantinhos escondidos da cidade, maravilhamo-nos com os enormes jardins do Museu do Barroco, perdemo-nos pelas pequenas ruas comerciais, onde apenas as casas de chocolates se encontravam abertas, pasmamos com os fantásticos letreiros das lojas, tipicamente adornados por detalhes verdes e dourados como só os lojistas desta região da Europa sabem ter. Vamo-nos meter por estas pequenas arcadas, entrar naquela igreja, experimentar este chocolate, e aquele também, comprar dois bretzels estranhamente confeccionados com vegetais, deliciosamente confeccionados com vegetais, experimenta este chapéu, repara como aqui está escrito Austrália em russo e não Áustria, risos, covinhas no canto dos sorrisos, espanto pela enorme fortaleza que vigia toda a cidade, encanto pela vista que dela temos, passinhos de criança sobre as milhares de folhas caídas sobre todos os passeios da enorme reserva florestal. Vinho quente, um cão que repete o hábito de rebolar na relva e sacudir o que fica no pêlo para cima das donas, um pequeno desvio inusitado e o deleite perfeito com a vista para uma montanha que se ergue do nada em direcção aos seus dois mil e quinhentos metros de altura.

Oito horas depois estamos exaustos. A conversa continua, saltando de viagens por uma Europa encantada para Filmes sobre pessoas encantadas pela Europa, de hábitos de cada um para as dificuldades sentidas em dizer “Cão” ou “Hör Auf!”, das enormes saudades de casa para as memórias de um casamento em Moscovo e um divórcio em Londres. O sol põe-se atrás das montanhas, o chá aquece-nos as mãos, o comboio vai partir dentro em breve. Fica a recordação de um dia delicioso, de uma companhia inesperada e de uma cidade que encantou todos os que a visitaram hoje.

No comboio, todos os passageiros têm as suas máquinas nas mãos, deliciados com a arquitectura requintada da cidade em contraste com o intenso amarelo e vermelho das folhas que subsistem nas árvores austríacas e que lhe conferem um ambiente único. Eu, encostado ao frio vidro do comboio regional, esboço a memória cliché da minha cidade. Porque é para mim uma verdade inegável.

Quanto mais viajo, mais valor dou ao meu Porto. À sua cascata de casas que rebolam pela Sé em direcção às moedas encantadas no fundo do Douro, à ingenuidade das suas pessoas, à sujidade e ao frio granito. Fecho os olhos e sorrio. Vejo-te dia quinze, se me deixares.

Pedro, November 1st, 2007