January, 2007

luto

Apesar de Deus estar morto e enterrado, já ninguém se importa com isso – isto, se é que alguém alguma vez se importou. O mundo vive num rodopio infernal que se mistura com a vontade de uns em criar obra, - pouco motivados com a obra em si mas com tudo o que ela lhes poderá trazer - de outros em deixar legado, - tentando fazer dos seus filhos os filhos que eles nunca foram - daqueles em impressionar uns e outros, - porque não nos contentamos em ser simplesmente nós; o nós, tem de ser significativamente melhor que o eles - deles em cobiçar o que elas fazem, - porque se elas fazem, elas são melhores que eles, o que significa que eles também têm de fazer - delas em falar do que eles fizeram , - porque se eles fizeram, é preciso falar sobre isso até se concluir que elas fariam o mesmo, mas melhor.
No entanto, não é que vivendo no meio de todo este turbilhão de afazeres, dolorosos pela falta de perspectiva, ninguém pergunta porque está dentro dele? Se antes tinham ainda um Deus a seguir, um éden a aspirar e o abismo para evitar, hoje em dia apenas o trabalho de todos, a glória de uns e o infortúnio de outros é que conta para a glória deste nosso mundo. De um anho desamparado pertencente a um rebanho ignorante mas satisfeito que seguia um único pastor, decidimos ser cordeiros sem rebanho e sem pastor, mas sempre cordeiros, sempre animais. Deus está morto. Eles não se importam com isso, os animais. Importo-me eu. E se não me posso apoiar no Morto, a que me devo agarrar então?

Pedro, January 21st, 2007

dissimulações

Sentando num qualquer banco de jardim esquecido no tempo, confrontas-te com a disparidade entre a pessoa que és e aquela que aspiras ser. A tarefa a que te propuseste de te tornares num homem mais sóbrio, que tenta a tudo o custo não ser regido por instintos primitivos e descabidos, descortina-se bastante mais tumultuosa e bicuda do que aquilo que à primeira vista te poderia parecer.

A orientação por estados de emoção básicos – medo, felicidade, tristeza e raiva – é intrínseca ao ser humano, sendo por isso anti-natura tentar afastar estas quatro reacções ao nosso quotidiano. No entanto, é vulgar observar atitudes indiferentes a situações que deveriam desencadear gargalhadas descontroladas, histerismos desmedidos ou uma ira absurda. Apesar do calculismo, indiferença ou falta de sensibilidade a que casos destes possam estar associados, invejo pessoas assim.

Pedro, January 17th, 2007

vulgaridade

Tantas ideias para escrever, em qual pegar? Nos últimos dias parece que tenho a cabeça repleta de futilidades, nódoas na consciência que apenas nela se encontram para esconder o que verdadeiramente tenho de fazer mas que aparentemente surge como difícil de deslindar. De qualquer das maneiras, aqui vai um pensamento.
“O destino da raça humana está nas mãos de pessoas bem mais adequadas ao desafio do que eu. Apesar da vantagem ou não de invenções prodigiosas poderem dar lugar a outro texto, convém não descurar destas enquanto escrevo e, por isso, não o vou fazer. Melhor do que isso, e na senda daquilo que tenho feito e que é sem dúvida o meu território, vou por ora cingir-me ao meu próprio achincalhamento. Sou preguiçoso, não muito brilhante de cabeça e, mais do que tudo, um desmotivado de primeira categoria que sabe de antemão que jamais estará envolvido numa descoberta que mudará o rumo da humanidade. Restar-me-ia então a suposta paz intrínseca da vulgaridade do ser. No entanto, ao chegar a esta rápida e confortável conclusão, sinto de imediato uma pontada na moral que me diz que mesmo não tendo recebido no legado uma mente pujante em inventos fantásticos deveria talvez tornar-me um instrumento útil para aqueles que dotados nasceram. Então, deveria servir a humanidade e ajudar a que este mundo fosse melhor daqui a outros dois mil anos.
Ora porra, que se dane isso! Se há gente mais talentosa para gerir um pais, descobrir vacinas, conhecer o que o espaço tem para nos mostrar, inventar porcas e parafusos, porque raio não deixar esse trabalho para essas mesmas pessoas? Porque não posso eu viver à sombra desses que inventam e fazem, sem que para isso tenha de sentir um aperto na decência? Sociedade esquisita, esta a nossa, que nos obriga a fazer as coisas – mesmo que a contra-gosto – para que assim consigamos subsistir.

Não pedi a ninguém para existir e, verdade seja dita, ninguém me força a continuar a tal existência. No entanto, gostava de levar uma vida onde a tal paz trazida pela minha vulgaridade me deixasse viver. Viver para existir, é certo, mas pelo menos para não ter possibilidade de pensar nisso.”

Pedro, January 16th, 2007

vigília

Há um par de horas que a penumbra se apoderou de um quarto que pouco ou nada de relevante tem para contar. Decidiste esquecer a janela aberta, convidando a entrar o brilho sonhador do céu pintado de branco e o frio de mais uma noite de um Inverno que se mostra pouco rigoroso. Durante esse par de horas sonhadoras, formulaste ideias e pensamentos voláteis cujo fim é pouco certo, tentando encontrar projectos de mil cores para cair no tão desejado sono profundo, delicioso subterfúgio que te afasta de tudo o que invariavelmente te abespinha e que terminantemente ambicionas deixar para trás.
Infelizmente, nas últimas noites a falta de sono conquista tudo o que em ti vive, forçando-te a viver tudo aquilo de que pretendes fugir uma e outra vez. Estás cansado de evasivas, mas sabes também que são elas que, de um momento para o outro, podem alterar o teu modo de estar. Prostrado no colchão pouco ou nada confortável, enterras os cabelos na almofada à espera que o cansaço derrube a insónia, e que todas as ideias infames que produzes, acerca daquilo que irás fazer no dia seguinte para te salvar, se esvaeçam no ar gélido.
Estás cansado, é compreensível. Tudo o que ambicionavas no passado apresenta-se agora como fútil, nada interessante, pouco digno do esforço que estavas disposto a aplicar. Como tal, à falta de verdadeiras direcções que sabes querer tomar, decides fazer uma pausa, vivendo nos livros as vidas que outros sabem criar de uma forma infinitamente mais criativa e bela do que aquela que tu usas para criar a tua. Apetece-te estar sozinho, tornar-te outra pessoa, e no entanto mesmo isso falha.

Nem tudo seria mau, se pelo menos conseguisses dormir.

Pedro, January 12th, 2007