November, 2006

nas margens do sena

Encontrei-te à mesa de um restaurante nas margens do Sena, vestida com o teu elegante vestido negro, e os resplandecentes cabelos soltos. Não te conhecia, mas arrisquei sentar-me na mesma mesa posta para dois. Desastrado, entornei o teu copo de vinho enquanto tirava o casaco. Não fizeste caso, sorriste e pediste mais dois copos daquele maravilhoso tinto. Disseste-me o teu nome, pediste-me o meu. Era uma noite atípica, Paris estava às escuras, apenas o reflexo do céu estrelado num rio que ousou parar o seu curso, e uma estranha luz que emanava daquela grande ramada circundante à nossa mesa. Até mesmo as estrelas que nos refulgiam no céu comportavam-se com misteriosos modos, impelindo-nos para a melhor noite das nossas vidas, como todas aquelas estrelas de milénios há muito passados já viram ao longo de eternidades. Enquanto nos maravilhamos com aquele molho de pimenta e café que acompanhava o jantar, contaste-me a história da tua vinda a Paris. Desculpa-me por dela não me recordar. No início, detive-me no teu gracioso olhar, depois, perdi-me no teu acanhado nariz e nos teus deleitosos lábios, no teu frágil gesto a colocar a alça do vestido, que teimosa e repetidamente tombava, de volta ao seu lugar e no modo assarapantado como acomodavas o cabelo sempre que ele te atrapalhava a conversa. Quando paraste de falar beijei-te. Ao mesmo tempo, a doze passos de onde estávamos sentados, o Jeff Buckley surgiu, começando a cantar o seu Grace desde a deliciosa Mojo Pin até à arrepiante Dream Brother. Ao tocar o último acorde, caíamos prostrados sob o peso dos nossos corpos, derrubando aquela pequena mesa para dois num restaurante ladeado pelo rio mais famoso do mundo. Podiamos ter começado a nossa vida ali, no chão de Paris. Mas os mortos jamais terão direito a uma nova vida. Mortos, envenenados por um sonho.

Pedro, November 27th, 2006

guerras

Uma luta constante perpetua-se na tua cabeça. No cimo de uma colina estão os ares de mudança, prontos para atacar toda a indiferença contida numa apática espera ao longo de um planalto desprovido de interesse. Todos conseguem ver que a mudança é mais forte que a indiferença, que um duelo originaria uma vitória fácil da transformação a partir da displicência da indiferença, mas porém, ninguém sabe o porquê de tal duelo tardar a acontecer. Sente-se a vontade da mudança a aumentar a cada segundo, ao mesmo tempo que a indiferença se acomoda à monotonia diária, à sua falta de orgulho e objectivos. Observam-se ímpetos falhados de alguns guerreiros da reforma que acabam feridos pela própria descrença nas suas atitudes. A indiferença é rainha no oceano das tuas deliberações, torna-se a venda em frente aos teus olhos. A mudança poderia avançar em força e vencer, mas algo a trava. O que será?

Tornas-te apático, mesmo sabendo que está errado. Em momentos assim não há muito a que te possas agarrar e em que possas pensar. Não sabes qual é o próximo passo a dar e, no entanto, se me perguntares, de imediato te respondo. Tu és é parvo.

Pedro, November 27th, 2006

o perfume

Dás por ti profundamente inebriado por uma descarga de energia repentina, preso nas redes de um só cheiro. Sabes que não precisavas de qualquer súplica para que te abandonasses neste estado perpetuamente pois de bom grado assim permanecerias até que os sentidos deixassem de possuir a força necessária para se cometerem aos desejos do corpo. Ajoelhado à sua frente imploras-lhe que fique, afastas a razão e deixas-te levar pelas ondas de perdição que a pouco e pouco se apoderam de toda a tua vida. Precisas deste impetuoso narcótico para te manteres aceso, seguro de todas as tuas capacidades motoras. Este perfume encantador não te deixa, fixou-se por todas as entranhas do teu miserável cadáver para que mesmo longe da sua alma tu tenhas a necessidade última de, a ela, te aprisionares. Estás em êxtase, se te fosse possível derreter como um cubo de gelo, há muito que serias um enorme lago uniforme no chão que aquele génio celestial diariamente percorre.
São estes os pensamentos que mal te deixam adormecer, aconchegado naquele gigante edredão de penas. Mas adormeces. E é quando acordas que entendes que, como tudo o resto que é bom, já passou, estando agora algures entre as folhas do desconhecido. Tudo jaz como antes de sentires aquela vertiginosa fragrância com uma subtil oscilação de amêndoas e madeira velha. Acabou, está tudo na mesma e nada mais ganhaste do que uma reconfortante memória de cada vez que te for oferecido o mesmo perfume. Vais receber a oferta e cair na imensa ternura. O bálsamo será o semblante de alguém ou aquelas férias que já não te faziam falta recordar. Mas acabará por aqui. Nada mais que uma reminiscência o que, de resto, já era de esperar.

Pedro, November 25th, 2006

vinil

O som da agulha que percorre o empoeirado vinil. Para, põe de lado tudo o que estás a fazer. Fecha os teus olhos com toda a serenidade que te for possível de momento, controla a tua respiração e sente a melodia agreste da agulha a deslizar pelo negro disco. A doçura filarmónica a trinta e três rotações leva-te à pacificação completa, distante de todos as tuas dúvidas e considerações obscuras que te vêm atordoando nos últimos tempos. Mas está claro, tu não tens nenhum LP para apreciar tudo isto e muito menos um gira-discos, foste levado pelas ideias de todos os outros, sem sequer considerares que apesar da maioria seguir um caminho diferente e bem mais consensual, a agulha sobre o plástico poder-te-ia transportar para lugares dentro de ti impossíveis de atingir com um qualquer CD na mão. Sem dúvida que o ruído involuntário faz maravilhas aos ouvidos daqueles que realmente importam, mas será que é de música que tudo isto se trata? Ainda estás a tempo de trocar o CD pelo vinil.

Alberto Gedeão escreveu que o sonho comanda a vida. Antes dele, muitos tinham exprimido a mesma ideia por palavras idênticas e muitos outros vieram e virão a seguir sentindo e experimentando o mesmo. Não tendo a menor dúvida que a grande maioria das pessoas é comandada por muita coisa que não os seus sonhos e aspirações, umas porque não têm alternativa, outras porque nunca sentiram necessidade de se abrir a eles e um último grupo porque inexplicavelmente vive sem qualquer sonho ou desejo, tenho também as minhas ambições, grandes o suficiente para me preencherem e pequenas quanto baste para que não as ache impossíveis de realizar. Resta saber se irei ter a bravura suficiente para as pôr em prática. Se vou conseguir fazer a maldita troca entre CD’s e vinis, tendo em conta que a primeira opção não me sacia.

Pedro, November 24th, 2006

sobrou o nada

Maldito sejas.

Levaste-nos a vontade de construir uma família, de viver para os nossos filhos e de nos fazer sentir bem perante todos aqueles que nos rodeiam. Levaste-nos a incerteza, o pudor e seu rubor, a paixão, o romance. Trinchaste todo o amor que se tinha mantido inatacável, sem nunca se ter deixado decifrar por todos aqueles que sempre o sentiram sem ver ilustrada a sua causa. Acabaste com o olhar crítico perante o mundo, com a contemplação atenta e emocionada de toda a complexidade com que o acaso soube edificar toda a natureza. Foi-se o cheiro de todas as noites frias, o sabor de uma chuva que agora nos cai seca no regaço e o som de uma multidão deslumbrada que hoje jaz apática num qualquer canto fortuito, todo ele repleto de um negrume difícil de comportar. Tiraste-nos a vontade de reflectir sobre aquilo que queremos, a aptidão para conceber tudo o que imaginamos, os horizontes que se abriam para uma nova jornada cheia de força e inquietude. Destruíste o amor-próprio, o ego, o super-ego e o alter-ego e, uma vez desfeitos, espalhaste as suas cinzas pelo mundo, não com o intuito de as ver crescer numa folha de laranjeira mas sim para que todos o pudessem calcar e desprezar. Estragaste a vivacidade dos mais novos e a felicidade moribunda daqueles para quem o tempo já há muito se tornou num jogo de constante ironia. Consumiste toda a feliz ignorância das crianças, o fulgor entusiasta dos adolescentes e a fortuna dos casais. Sem qualquer pejo, arruinaste o brilhantismo do ser.
Quando terminaste, e embora o esforço, nem tu foste capaz de sorrir. Entendeste que nada havia mais para levar, acabar, tirar, destruir, estragar ou consumir. Empalideceste, cerraste-te sob o teu abdómen e choraste o pranto do mundo. Aí, experimentaste a apatia que tão bem soubeste oferecer a todos. Sofreste a mesma morte que tão bem soubeste dedicar a todos os outros. Perdeu-se toda a vida, resta agora a vacuidade. Sobrou o nada. Maldito sejas.

Pedro, November 22nd, 2006