#44

Porto, 9 de Abril de 2008

Entrei na Rota dos Chás coberto pela água que caía lá fora. As miúdas sentadas no chão, cabeças no ar com as paixões e penteados da idade não devem ter reparado como chovia torrencialmente no Porto. Procurei por eles na sala do piso térreo mas não fosse o caso de terem os três mudado o desenho das suas figuras, ia ter de subir os degraus do jardim interior abalroados pela chuva para que me pudesse sentar no meu canto e bebesse um chá estranho trazido em bule de barro.

Paro. Não me consigo habituar a este modo estranho como escrevo e não penso, como penso e não digo, não há forma de me fazer entender quanto à disparidade do que em mim se enterra. Este algo que é meu é uma mentira, bem guardada nos bolsos de um casaco que penso sempre nunca mais voltar a vestir. Desoprime-me, faz-me ver o meu mundo por uns olhos que não são meus mas que também não são de mais ninguém. Os olhos de uma criança que nunca vai crescer mas que se quer com certezas guerreiras fazer parte de um mundo adulto que não o mira sem desdém. Ninguém o merece, certo? Errado.

Hoje fiz o meu compasso de espera a tentar enganar o relógio que se aconchegava às oito menos dez da manhã com a Temptation do Moby. O original é dos New Order mas eu apaixonei-me por esta primeiro, e que guarde para sim os que me dizem que a primeira faz a segunda gritar de dor. Não faz, é doce, é minha. As gotas caíam em catadupa por cima do carro, os estofos gastos e quase rasgados acariciavam-me a pele dos braços nus, os vidros fechados inundavam a imagem da minha faculdade desfocada pela água num nevoeiro de sopro só meu. Os carros iam-se acumulando lado a lado numa dança sem ritual nem carinho para mais um dia de trabalho ou quiçá de falta dele. Eu ouvia alguém cantar que à noite queria estar sozinha. É de noite, pelo menos eu estou sozinho.

E às vezes é uma merda estar sozinho, não é? Entendam-me, eu gosto de estar sozinho, sou egoísta o suficiente para achar que a solidão é um luxo. Chateia-me ter de fazer favores a alguém que não sou eu. Sou uma criança, lá está, que além de infantil é burra – porque há crianças que não são burras – e se dá ao luxo de escrever futilidades barbáricas como esta. Mas eu gosto de o ser, e também gosto de me sentir mal quando sinto a falta do toque de alguém. Às vezes sabe bem termos alguém com quem podemos largar tudo o que guardamos durante um pequeno dia, uma pequena semana, pequenas eternidades. Hoje é uma merda estar sozinho. Uma merda pequena, imbecil e ridícula. Amanhã é um sonho outra vez.

Entrei na Rota dos Chás com um olhar tremido como entro sempre que não reconheço instantaneamente as caras que me rodeiam. Subi o degrau e debrucei-me sobre a mesa. Devo ter mandado uma piada fácil, não me lembro. Sei que reparei na mesa de Italianas e no casal ainda mais solitário que eu que trabalhava a um canto do andar de cima. Pedi à empregada que me escolhesse o chá para o qual não tinha paciência de estudar a carta e o bolo que mais depressa me ia trazer ao de cima. Não ando em cima, para que é que quero ir ao de cima? Não quero. Sabes, não quero. Quero ficar assim, estável. Tenho de me deixar ser estável. Hoje é bom estar sozinho. Afinal. Que textos de treta, pá.

Pedro, April 9th, 2008

#43

Porto, 29 de Março de 2008

Música. Encerras nos punhos a loucura que tens acumulada e deixas que tudo desapareça através do que te entra pelos ouvidos atentos. Entras no ritmo, a batida é o teu pulsar e ela transmite-te a cadência do que vives. As pálpebras que nunca se tocam, os dedos que levitam no ar ao sabor da tua dança efémera. As pálpebras que nunca se tocam para que com os olhos despertos consigas ver presente as mais doces recordações. As duas mãos que te envolviam a cara com ternura, o volante que prolongava o corpo naquela viagem alucinante, o teu choro irrepreensível de quem vê a parede de vidro quebrar em cinco instantes. A música dá vida ao que viveste, ao que já não sabes ser, dá-te coragem para te conheceres numa dança à volta do teu próprio tempo.

Há um banjo e uma voz de criança. Há dois violinos amantes e um violoncelo ciumento. Há o banjo outra vez, batidas nos tambores perfumados e há o refrão. Agarras o volante com mais força, sentes a face a escaldar e as lágrimas que nela assentam a ferver, cantas para que ninguém te ouça. Vais e vens com um propósito, sonhas no que sabes ser impossível, pedes para que aconteça aquilo que te assusta e de que queres fugir, foges quando sabes que é possível, o banjo volta, os cantos da criança ainda não acabaram, aceleras por entre as montanhas e pedes para que tudo fique esquecido. Mas a música volta e nada é esquecido. As memórias não se esquecem, guardam-se. As chaves perdem-se, mas a música tem os seus truques bem marcados.

Deixem-me que lhe chame Sofia. A Sofia gravou-me dezasseis músicas num disco colorido a lápis de cera, guardou-o numa capa com algumas colagens, pinturas e rabiscos, selou-o com a palheta de uma guitarra presa por um pequeno fio e entregou-me tudo com um sorriso apressado no dia em que decidi partir. Quatro meses depois, sozinho em vésperas de Natal numa Nuremberga deserta, decidi esquecer a razão e fazer-me à estrada em direcção ao Canteiro. Em pouco mais de um dia estava de volta a Portugal, em pouco mais de um dia a banda sonora da Sofia tinha-se transformado no meu mais precioso baú.

A noite ainda não se foi deitar, a estrada está gelada e o volante às vezes perde os sentidos. O carro luta contra a neve e o vento para não ser atirado berma fora, os campos brancos chamam por ele, o céu também. Dentro do carro, tu contas a história de um rapaz esquecido no tempo, lá fora, esse mesmo tempo parou, estanque num daqueles globos que ela uma vez me pediu. Desculpa por nunca to ter trazido. Desculpa-me por não ter ido jantar a casa, eu não sabia.

Companheiros de aventura nos seus navios mercantes do asfalto, o tracejado da rota torna-se numa linha inquebrável, a neve Alemã e aquela estrada adorável sem fim na provença Francesa, o deserto Espanhol e as eléctricas serras Alpinas. O fogo-de-artifício que não existiu, a cidade abandonada por entre um encantador nevoeiro de bombas carnavalescas a explodir em caixotes decrépitos nas estranhas ruas caiadas com desenhos a lilás, o acelerador, o volante e o banjo, o teu beijo, o meu banjo outra vez. O amor não te vai nunca deixar em paz, criança. Cantas, o que é que isso te diz?

Pedro, March 29th, 2008

#42

Porto, 26 de Março de 2008

São as pequenas incursões por uma cidade ainda adormecida que fazem o Porto entranhar-se dentro de mim. O paralelo encharcado pela noite espera pacientemente por uma distracção que me empurre para o chão, os gatos vadios retornam à sua casa nos jardins municipais abandonados, homens engravatados e ar ensonado apressam-se a pôr a gabardine nos bancos de trás do carro e a seguirem viagem para o seu trabalho já com um ar entediado decididamente entranhado nas suas feições.

Fecho as portas do Velhinho, peço ao Billie Joe Armstrong que me acorde um pouco mais, desço os vidros o mais que posso para que seja o frio e não a chuva a levarem de mim o que resta de sono, começo o dia a tentar evitar que algum carro desgovernado acerte em mim para me calar a sinfonia do acordar. Não que me importasse, penso entre dois sorrisos às nuvens que assustam antes de seguir caminho para a Faculdade. Percorro a rua das árvores púrpura sem prestar atenção aos faróis encharcados que por mim passam e penso que desde que voltei no dia oito de Fevereiro ainda não escrevi nada por estes lados.

Já lá vão sete semanas e ainda assim tenho presente a tarde do regresso como nada mais. A vontade de saltar fora do avião, de me estender de joelhos e pedir ao piloto para dar meia volta ao grande pássaro, a raiva que sentia enquanto um imigrante fala-barato se debatia entre três cervejas espanholas e a sua adoração cega pela nação que é a sua cidade, a desorientação sufocante de não saber onde colocar os pés na chegada ao aeroporto, a retina em stress que não quer olhar para ninguém, a força que se faz para se fechar os olhos e esperar sem sucesso que ao abrir sejamos transportados de volta para a casa que nos albergou durante seis meses.

Passei aquela tarde sozinho no quarto, de porta trancada e olhar prisioneiro do tecto mais branco que alguma vez vi, sem conseguir largar uma palavra por entre as muitas que dentro da cabeça ainda escorreriam em inglês de improviso. Veio o trabalho, o acordar com as galinhas que nada me chateia, os almoços entre gargalhadas recheadas com parvoíce e muito sal, as saídas à noite plantadas pelos sorrisos e devaneios das minhas crianças alucinadas. Vieram os passeios pela minha cidade, os sorrisos e turras do miúdo que vai ser rei, os serões de cinema – o cinema, que saudades que eu tinha do cinema! – e o regresso a casa exausto pelos atropelos de dias que deveriam ter o dobro do tamanho se algum dia o sol e a terra nos levassem a sério.

Pedro, March 26th, 2008

#41

Nuremberg, February 4th 2008

Some thoughts in English so this time everybody gets it right. A couple of days ago Matt came to my place asking for his hard-drive and told me he was doing a video of this five months in Nuremberg. Although the idea had crossed my mind a few days back, I definitely always felt to lazy to do it. Also, there’s the problem of doing a thing that u usually will end up not liking after spending so much time working on it. It’s kind of like investing your beautiful and kind-of-short time after a girl and then, when you finally have it, you don’t want it anymore. Or a boy, anyway girls, you got it, right? The idea absorbed itself.

Anyways, I’ve not been after any girl in the last week and neither I felt like this came out miserably. It’s not amazing, it doesn’t even has the greatest moments in here - those that no camera can get - but it certainly gets the message to the other side. At least for those of you who lived part of it. So. Hope everybody likes it, if you want you can even make a little bu-ooh like Lígia did - sorry hon, had to tell the crowd ;-). Bu-ohh. Right. Because Nadya left today. I will guess that was the main reason for doing this. It’s a strange and sad feeling. Woke me up at 8:30, gave me some extremely strong coffee that almost cause me a caffeine overdose, and left. Although, for my bad, no one cried. Well, at least not in front of me. In front of me everybody behaves. Or maybe nothing happened because her goodbye party was kind of crazy, kinky I should add, and therefore good feeling trumps bad feelings. Yes it sure does. It’s four days left to go and not a single spot of motivation for doing it. Hopes are that good feelings keep on trumping. “This was kind of good, wasn’t it?”

Pedro, February 4th, 2008

#40

Nürnberg, 26 de Janeiro de 2008

Delicioso. Ouvir as diferentes combinações das camadas que uma música que conhecemos de trás para frente tem é, outra vez, delicioso. E o vídeo, amigos, o vídeo é uma delícia, mesmo que só o vejam com o acompanhamento da sexta camada. As minhas duas próximas semanas podiam ser assim, calava o exame de Strategic & Operations Management na terça-feira, seguía o mesmo raciocínio para os exames de Foundations of Business Administration e International Management with Case Studies na quinta feira, e era um rapaz feliz nas suas duas últimas semanas como ERASMUS.

O quarto está meio despido. Nos intervalos do estudo e das leituras de artigos vou tirando as fotografias que pintaram as paredes por cinco meses, arrumando o que quero levar e o que por cá vai ficar. Dia oito estou de volta, para o bem e para o mal, vão ter de levar comigo outra vez. Passou num instante. Ainda está a passar digo. Mas já toda gente se olha como se isto estivesse a acabar, já se dão abraços de despedida prolongada, já se combinam visitas lá para Março, Agosto e afins. E também já se prepara o que virá após as duas semanas. Vou fazer um trabalho de investigação sobre detecção de tendências em blogs. Tenho lido bastantes artigos de investigação científica e, estranhamente, tenho retirado algum prazer disso. Vou fazer um trabalho não remunerado mas vou a cima de tudo - penso, espero - gostar de o fazer. A ver. E agora calo-me, que não estou com grande espírito para escrever. Uma vez mais, delicioso.

Pedro, January 26th, 2008